Creio que é, mais uma vez, a idolatria da estatística. Números divinizados! Jesus de Nazaré seria um fracasso dentro desta ótica. Investiu a vida em um pequeno grupo, não deixou um metro de construção, etc. Diante disto, pergunto: quem quer negar-se a si mesmo? Quem quer um Evangelho de Cruz? Hoje vemos o “evangelho” do “tapete vermelho”, dos “tronos”, etc. O que tem importado a muitos pregadores e líderes é o “IBOPE”. Desculpe-me, mas, Gente assim, deveria ser alvo do BOPE (Batalhão de Operações Especiais da PM). Algum tempo atrás, um pastor sério me fez a seguinte pergunta: “será que somos bobos?”. Isto posto diante do crescimento deste “evangelho” de dividendos, de conveniências. Eis aí um nome duro, mas que pode ser aplicado em muitos casos: Igreja de Conveniência. Você para, compra, põe no bolso (mente) e vai embora.
É a idolatria da estatística. Números divinizados! Jesus de Nazaré seria um fracasso dentro desta ótica.
Nas últimas décadas temos visto várias práticas empresariais serem utilizadas nas igrejas como, por exemplo, metas a serem alcançadas quanto à multiplicação de fieis engajados em pequenos grupos. O que o Sr. acha deste tipo de prática?
Gosto dos pequenos grupos. Um homem de Deus, há anos, me disse: “quem não está num pequeno grupo não está na Igreja”. Falava dos grupos formados por afinidades, gostos comuns, etc. No entanto, isso não pode ser confundido com um sistema voltado apenas para a multiplicação. Como experiência de comunhão, sim. O Ministério Pastoral tornou-se gerencial, executivo e empresarial. Precisamos com urgência voltar ao Ministério Pessoal, Devocional e Pastoral no sentido exato do termo. Num modus vivendi empresarial, quem irá valorizar, por exemplo, um membro com 90 anos de idade, desamparado, pobre e doente? Ora, ele já não é “produtivo” ou “útil” para o “Sistema Religioso”, tenha ele, o sistema, o rótulo que tiver.
Como bispo de uma diocese da Igreja Episcopal Carismática do Brasil, ramo do protestantismo reformado da Igreja de Jesus Cristo, como o Sr. analisa a percepção da sociedade quanto a uma igreja sacramental e litúrgica nos dias atuais?
Hoje há uma espécie de “ressaca” no mundo cristão. Depois das “experiências” e aventuras, há um desejo de retorno, de volta às origens. E, graças a Deus, esta visão tem se alastrado. A Igreja Episcopal, como qualquer uma em qualquer época, tem suas virtudes e equívocos, mas, ela tem sido inclusiva, acolhedora, misericordiosa e graciosa. Temos sofrido críticas por isso. As pessoas brigam com unhas e dentes pela Teologia da Graça, mas ficam incomodadas quando essa visão é praticada. A IEC tem procurado viver a verdade dos Fundamentos sem abrir mão da leitura do mundo atual. Assim, ela tem uma Liturgia (que não engessa, imobiliza), uma visão Sacramental das Ordenanças (meios de graça), uma consciência dos Carismas e um ardor pela Evangelização, não como catequese ou conquista, mas, como Boa Notícia para um mundo cansado, até mesmo da religião.
Quais são os seus planos ministeriais para os próximos anos? Em que projetos o Sr. está envolvido?
Quero, neste final, dizer que o que foi dito por mim, foi em amor incontrolável pela Igreja do Senhor Jesus Cristo. Há 39 anos que conheço a Igreja. Devo minha vida e ministério à gente boa dessa Igreja verdadeira que ministrou graça sobre mim, me suportou em anos difíceis e, nunca, a exemplo do Senhor Jesus Cristo, desistiu de mim. Portanto, a Igreja Viva está por aí, até mesmo no meio do “sistema religioso” (seja ele qual for). Hoje, quando antevejo o ocaso da vida, rogo a Deus que me faça fiel ao chamado. Jamais abdicarei da esperança. O amanhã, realmente, a Deus pertence. Como também o hoje. Minhas raízes são fundamentadas na vontade do Pai Celestial. Quero estar onde ELE onde quer que eu esteja. Na Igreja Episcopal, a qual amo, desenvolvo hoje o meu Episcopado na Zona Sul do Recife e Estado de Alagoas e sou Reitor do Seminário Teológico Episcopal Carismático, o SETEC. Um dos meus sonhos ministeriais é ter um local apropriado para investir na restauração de pastores feridos nas “batalhas da vida”. Gente querida que foi machucada na caminhada. Ver esses homens restaurados é um dos projetos que ainda espero realizar. Recebo muitos deles em meu Gabinete Pastoral, e, de muitas denominações. Buscam graça, misericórdia e acolhimento. Precisam de um tempo de descanso, reflexão e oração. Espero que um dia, Deus, se assim for a Sua vontade, me propicie este local, uma espécie de “Vale do Perdão”.