O Luto de Eli

A última moda agora é falar em sustentabilidade. Trata-se de um “conceito sistêmico relacionado com a continuidade dos aspectos econômicos, sociais, culturais e ambientais da sociedade humana”.

A sustentabilidade, fundamentalmente, visa preservar a biodiversidade e os ecossistemas. A tecnologia deve ser sustentável, o desenvolvimento econômico precisar ser sustentável, as empresas buscam ser sustentáveis, e por aí vai... Uma coisa, entretanto, não tenho ouvido falar nestes dias: famílias sustentáveis.

Como pastor, tenho aconselhado em média 15 pessoas por semana. É uma rotina difícil e desgastante. Diferentemente dos profissionais da saúde, que fazem escuta terapêutica e são treinados para ouvir dramas e não se envolver com eles, pastores sofrem junto com as pessoas, choram com os que choram.

Neste contexto, impressiona-me a quantidade de gente que carrega problemas que foram se complexificando desde a infância. As questões são as mais diversas, porém as mais freqüentes estão relacionadas à auto-imagem, insegurança, baixa auto-estima, auto-sabotagem, além de transtornos ligados à orientação sexual e a afetividade.

Em um “recorte” de recente artigo da revista “Filosofia e Psicanálise” o psicanalista francês Charles Melman afirmou: “pela primeira vez na história, a instituição familiar está desaparecendo, e as conseqüências são imprevisíveis. Impressiona que antropólogos e sociólogos não se interessem por isso”.

Surge, então, a questão: como está a sua família? Você acha que ela é sustentável? Sua casa é um ambiente saudável ou insalubre? Como estão seus filhos? Eles estão crescendo de forma equilibrada: física, emocional e espiritualmente?

Hoje é dia das crianças, mas, sinceramente, muitas delas não têm o que comemorar. Seus pais são personagens ausentes, transeuntes insensíveis e inafetivos que circulam pelos corredores das casas em que elas habitam. Estão sempre sobrecarregados, suas agendas são intermináveis, não dispõem de tempo para amá-las, orientá-las ou brincar com elas. Estes "afazeres" são delegados as babás, a escola, a igreja e, pasmem, aos programas de TV!

Por que você honra seus filhos mais do que a mim...?”. 1 Sm. 2:29.

Esta afirmação contundente foi feita pelo próprio Deus enquanto arrazoava com o sacerdote Eli pelo fato dele negligenciar a educação dos filhos. Apesar de ser um “homem do sagrado”, Eli fez vista grossa para o que acontecia bem debaixo de seus olhos, pois seus dois filhos, Hofni e Finéias, além de se prostituírem a porta da tenda da congregação, ainda profanavam as ofertas e sacrifícios que eram oferecidos ao Senhor tomando parte deles para consumo próprio.
A conseqüência de tamanha licenciosidade foi desastrosa: “E isto te será por sinal, a saber: o que acontecerá a teus dois filhos, a Hofni e a Finéias; ambos morrerão no mesmo dia”.

As Escrituras afirmam que “os filhos são herança do Senhor”. Eles são a melhor coisa que um homem ou uma mulher podem ter sobre a Terra. Podem trazer muita alegria, ou nos fazer amargar de tristeza; tudo depende de como estão sendo criados.

De uma coisa, todavia, estou convencido: “nossos” filhos não são nossos, são do Senhor! Ele nos delegou a responsabilidade de cuidar deles de tal forma a sermos referência em tudo em suas vidas. Se não os educarmos e não lhes transmitirmos os valores do Evangelho, Deus certamente cobrará de nós o destino que eles terão debaixo do sol.

O que aconteceu aos filhos de Eli foi trágico. Desgraça ainda maior sucedeu a sua
descendência: “eis que vêm dias em que cortarei o teu braço e o braço da casa de teu pai, para que não haja mais ancião algum em tua casa. O homem, porém, a quem eu não desarraigar do meu altar será para te consumir os olhos e para te entristecer a alma; e toda a multidão da tua casa morrerá quando chegar à idade varonil”.

O luto de Eli durou pelo resto de sua vida. Ele fracassou na mais importante tarefa que um ser humano pode ter: edificar a sua própria casa. Hoje, dia das crianças, quem brinca são elas, mas nós, adultos, devemos refletir seriamente sobre como as estamos criando, pois chegará o tempo em que a brincadeira se acabará, o que sobrará será apenas a vida real. Por isso, lembre-se do que citou Pitágoras: “corrija as crianças e não será necessário castigar os homens”.

Carlos Moreira

Senso de Sobrevivência Institucional (SSI) X Senso Comum Teórico dos Teólogos (SCTT)

Martorelli Dantas

Eu entrei no Seminário Presbiteriano do Norte bem novinho, tinha 18 anos, mas uma coisa eu já tinha, o tal do senso de sobrevivência institucional (SSI). O que é isso? É a capacidade de saber que há coisas que não devem ser ditas ou feitas, caso você queira sobreviver em uma instituição.

Muito embora o ambiente em que eu estudei, no final dos anos 80, beirasse o fascismo, onde imperava o policiamento intelectual e o denuncismo, eu consegui concluir o curso, em grande parte, pela compreensão e companheirismo de meu Tutor, o Rev. Edijéce Martins Ferreira.
Era claro para mim, que havia alunos que não tinham o mínimo de SSI. Lembro de um colega, que em uma aula de Escatologia, fez a seguinte intervenção, na presença de nosso carinhoso mestre, Rev. Éber Lenz César: “com a licença da palavra... eu acho esse negócio de ser amilenista ou pré-milenista uma merda. Isso não salva a alma de ninguém!" Foi a primeira vez que um “merda” fora dito em uma das sacrossantas salas de aula do SPN e o professor, ruborizado, bradou: Eu não lhe dou licença para usar esta palavra aqui não! Já para fora!!!

Foi este mesmo amigo (querido amigo) que em uma conversa com o, então, diretor do Seminário, respondeu à seguinte pergunta retórica “você sabe quem me colocou no cargo que eu ocupo, meu filho?”, com a assertiva dura e seca: “Sei sim, foi o Diabo!!!”. Eu não preciso lhes dizer que ele não é mais pastor presbiteriano, mas chegou a ser... imaginem vocês...

No final das contas, se você não adulterar, roubar ou matar, acaba sendo aceito como pastor em alguma denominação evangélica. Só não cometa um destes três pecados capitais. Ah... tem mais um, o da heresia. Não pode ser muito herege. Um pouco, quem não é?! Mas tem aquelas doutrinas, sobre as quais não se pode transigir. Não porque sejam pilares da fé, mas porque são as da moda, eleitas pelos “caciques do dia” como as inegociáveis. Nos dez anos em que fui professor de Teologia Sistemática e Hermenêutica do SPN (de 1994 a 2003), eu fiquei assustado com os efeitos que o excesso de SSI pode provocar nos jovens estudantes de Teologia.

Eles aprendem nas suas igrejas locais as respostas certas, elas estão no Catecismo de Westminster, e sabem que aquele é um lugar seguro para se estar e pensar. Nada fora deste estreito enquadramento é chão onde se possa pisar. Em minhas aulas, eu, frequentemente desafiava os alunos a questionarem o fundamento bíblico de suas crenças, verificando se aquilo que confessavam estava na e de acordo com as Escrituras. Mas era, e me parece que continua a ser, um esforço grande demais para a maioria deles, caminhar no espaço de oxigênio rarefeito de uma reflexão pessoal e livre.

Uma brincadeira que eu tinha prazer de fazer, era citar as Institutas da Religião Cristã, de João Calvino e pedir para que eles comentassem. Mas não qualquer citação, as cabeludas, as que não se adéquam com o “senso comum teórico dos teólogos” (SCTT), adaptando um conceito de Luiz Alberto Warat, feito para os juristas. Como pouquíssimos haviam lido Calvino e eram calvinistas de segunda ou terceira mão (explicando... acreditam no calvinismo que ouviram de alguém, que teria lido, que Calvino disse algo mais ou menos assim...), era fácil chocá-los. Como no dia em que mencionei o ensino de Calvino de que Jesus, após a sua morte, foi pessoalmente ao inferno para sofrer, “como que de mãos atadas”, uma vez que a nós estava destinado sofrer, morrer e ir para o inferno, as três coisas fez Jesus por nós.

O que dizer disso?! Era uma confusão só. O SSI não permitia dizer simplesmente que Calvino estava errado, mas o senso comum teórico dos teólogos dizia que a afirmação não fazia sentido (já estou vendo o número de e-mails que eu vou receber de calvinistas me perguntando em que parte das Institutas Calvino diz isso. Vá procurar, vá ler!). O grande problema é que eles não tinham escutado aquilo dos púlpitos de suas igrejas e nem tinham lido nos textos “semi-devocionais” dos calvinistas da moda de agora. E agora? Era justamente isso que eu queria lhes ensinar, que é preciso, nas palavras do Pe. Antonio Vieira, mais do que “pregar sobre os santos, mas pregar como os santos” (Sermão aos Peixes), não apenas pensar sobre o que disseram os nossos mestres e gurus, mas pensar como eles pensaram, criticar as práticas e os dogmas dominantes, como eles fizeram.

Quando deixei a Igreja Presbiteriana do Brasil, no final de 2003, havia recebido a honra de ser o paraninfo das três últimas turmas de bacharéis em teologia do SPN (são turmas anuais e não semestrais), havia sido por duas legislaturas presidente do Sínodo Central de Pernambuco e era Secretário Nacional de Mocidades, mas estava triste. Via crescer e se desenvolver nas mentes de meus jovens amigos o nefasto poder da síndrome do SSI, ela havia formatado e travado de tal modo a mente dos meninos que era notório o clima de medo e insegurança em minhas aulas. Poucos tinham a coragem de me questionar ou debater comigo minhas posições e afirmações, mas não faltavam os que faziam duras críticas ao meu ensino, logo após a minha saída da sala, só pra deixar marcada sua posição ortodoxa e tradicional.

Deixei a IPB de tristeza. Tristeza com a política eclesiástica, sobre o que eu não preciso dizer muito, basta dizer que é só política, nada mais que política. E tristeza pela educação teológica, que já não conseguia formar pensadores ousados e autênticos, mas meros repetidores do que é seguro e lugar comum. A tristeza ainda não passou, mas convive com esperança de que não seja mais assim. Deixei também a IPB, a igreja de meus pais e avós, porque quero continuar pensando, quero me contradizer, ser incoerente, ou seja, quero ser eu, quero ser livre!


Martorelli Dantas é Bacharel e mestre em Teologia e Direito. Doutorando em Filosofia do Direito na Universidade Federal de Pernambuco. É também Mentor da Estação da Zona Sul do Recife do Caminho da Graça

Por quê?


Por que as coisas mais incríveis da vida foram aquelas que passaram diante de nós e a gente quase não se apercebeu delas, foi como brisa de final de tarde num dia ensolarado de verão?

Por que a gente só dá valor a pai e mãe depois que a gente os perde na vida, depois que amargamos experimentar o fato de que os túmulos não falam, nem afagam, apenas calam?

Por que só aprendemos a reconhecer o valor da amizade quando perdemos nossos amigos, sofremos sozinhos, choramos escondidos, disfarçamos na mesa do bar as ausências reveladas pelas cadeiras vazias?

Por que a gente só se sente seguro depois que o corpo não corresponde mais aos nossos anseios, quando braços e pernas teimam em não mais nos obedecer?
Por que a gente só se sente maduro quando não dá mais para fazer coisas que só os garotos fariam, e por que a gente quando é garoto não consegue agir como gente grande?

Por que depois dos 40 a velhice se aproxima tão velozmente: a vista cansa, as costas doem, o sono é conturbado, a paciência diminui, tudo parece apenas mesmice?

Por que o amor com o tempo vai se apagando, como vela em fim de festa, e o seu brilho vai se ofuscando, como o orvalho da manhã que encobre o vidro da janela do quarto?

Por que a vaidade nos deixa a certa idade, os sonhos se esfarelam, os planos se desfazem, as prioridades deixam de existir, tudo, absolutamente tudo, passa a ser algo dramaticamente real?

Por que os filhos crescem tão rápido e nós, pais, sem que façamos absolutamente nada, passamos de mocinhos a bandidos, de heróis a vilões; por que eles deixam de nos beijar, abraçar, de dizer que nos amam e precisam de nós?

Por que a certa altura da vida, o exercício de qualquer que seja a profissão trás consigo um grande enfado, pois quando este tempo chega, até ganhar dinheiro se torna coisa penosa?

Por que antes que venhamos a experimentar todas estas coisas, e os nossos dias tornem-se sem propósitos, não nos rendemos a Deus, que pode ressignificar hoje nossa existência, dar a ela outro destino, colorir o acinzentado que se acumulou em nossos olhos encharcados de tanto asfalto e concreto, por sabor em nossa comida, prazer em nossas relações, sonhos em nossa rotina, música em nossa alma, paz e bem em nossa vida?

Sim, por quê? Por quê? E por que não?

Carlos Moreira

Bob Esponja vai ao Culto


Introdução

Semana passada, quando entrei em casa, vi a Gabi se esbaldando de rir na sala. Curioso, entrei no cômodo e percebi que ela estava assistindo a um desenho do Bob Esponja. Sentei ao seu lado e comecei a assistir também. No episódio, Bob Esponja havia saído do mar para ir a terra seca e, por conta disto, estava desidratado, quase morrendo.

Bob Esponja é uma série televisiva, criada por Stephen Hillenburg, que é veiculada no Brasil pela Rede Globo. Bob é uma esponja do mar quadrada, amarela e que vive no fundo do Oceano Pacífico, numa cidade submarina. Ele é um sujeito bonachão e ingênuo, que mora num abacaxi e trabalha num restaurante.

Nos próximos parágrafos, vou fazer correlações entre esse episódio do Bob Esponja, o “crente de igreja” e a mentalidade consumista dos nossos dias. Agora, para você compreender o porquê de tudo isto, leia o texto até o final...

Decifra-me ou te Devoro

“O fim material de toda atividade humana é o consumo”. William Beveridge. O termo “sociedade de consumo” é muito utilizado por economistas e sociólogos para definir o tipo de civilização que se encontra num avançado nível de desenvolvimento industrial. Lendo um pouco mais sobre o assunto, você poderá facilmente observar que uma das críticas mais comuns sobre a sociedade de consumo diz respeito a sua incapacidade de resistir às pressões do sistema capitalista.

De forma sintética, o objetivo do capitalismo é transformar o desejo do indivíduo, como consumidor, no desejo da massa, multiplicando exponencialmente o potencial de consumo. Para obter esse “milagre”, dentre outras coisas, aplica técnicas de marketing, inovadoras e inteligentes, para produzir nas pessoas a “necessidade” de consumir o que elas precisam e, não raro, o que nem imaginavam ter.

Do meu ponto de vista, a questão já assumiu proporções desastrosas. Estamos sendo movidos pelo que chamo de “concupiscência dos olhos”, ou seja, um desejo desenfreado de possuir coisas, muitas das quais, sequer precisamos. Você entra no shopping para tomar um sorvete e sai com uma calça jeans, um forno microondas e um belíssimo tapete para a sala de jantar. E haja cheque especial para “segurar a onda”!

A impressão que tenho, sem querer ser místico, é que há uma potestade espiritual atuando por trás deste sistema perverso. Existe uma espécie de “overdose de desejos” sendo projetada, ainda que de forma subliminar, na mente das pessoas, nos planos das empresas, nas leis dos governos e nos objetivos das nações.

Olhe para o que está acontecendo no mundo! Do ponto de vista ambiental, por exemplo, temos hoje uma situação insustentável, pois, para podermos saciar o apetite da sociedade de consumo, estamos exaurindo os recursos naturais do planeta, além de despejar indiscriminadamente resíduos tóxicos que ameaçam, seriamente, toda e qualquer possibilidade de regeneração da natureza e dos elementos imprescindíveis à sobrevivência humana. Tal cenário, não é fruto apenas do vazio e egoísmo humano, mas de projeções psíquicas, articuladas por “camadas espirituais”, que visam fomentar desejos incontidos nos indivíduos, não raro, contra si mesmos.

Este capitalismo “selvagem”, que nos empurra na direção de estar sempre adquirindo bens e serviços, impregnou de tal forma a nossa consciência que, como “efeito colateral”, passamos a existir condicionados a essa “espiral de consumo”. Em função disto, todas as interações que fazemos com o meio são baseadas em fluxos de interesses, os quais sempre se movem em nossa direção, como se fôssemos buracos negros, atraindo para nós mesmos tudo o que gravita ao nosso redor. É por isso que achamos tão natural comprarmos coisas indiscriminadamente, usarmos pessoas despudoradamente e explorarmos o planeta até a sua total exaustão!

Cristianismo à La Carte

Buscando correlacionar as implicações dos fenômenos psicossociais de nosso tempo com a vida religiosa, comecei a analisar a relação que existe entre o “crente” e a “igreja”. De antemão, quero lhe afirmar que, em muitos casos, trata-se de uma relação tipicamente patológica, que tem como uma das características principais o “espírito de consumo”, ou seja, esse arquétipo de, em qualquer circunstância, buscar apenas tirar proveito e extrair o máximo possível.

Costumeiramente, a relação desse indivíduo – que passarei a chamar de “Crente Bob Esponja” – com a comunidade, é uma relação baseada no “abuse e use”, na troca desigual, no benefício próprio, no egoísmo, na acomodação, na lei do menor esforço, no “venha a nós e Vosso Reino nada”. Minha conclusão não está baseada apenas em estudos de caso do gabinete pastoral. Pelo contrário, trata-se de uma análise de campo respaldada por anos de observação, por estudos de modelos conceituais, por conversas, discussões, e pela experimentação prática de processos organizacionais, métodos e formas de estruturação eclesiológica.

A conclusão a que cheguei, para minha tristeza, é a de que o “Crente Bob Esponja” é um consumidor voraz! Uma simples análise, por exemplo, sobre como ele escolhe a igreja a qual irá pertencer, já revela clara e objetivamente o problema. Exposto a esse tipo de situação, o “Crente Bob Esponja” levará em consideração apenas aspectos que atendam as suas conveniências e bem-estar. Dessa forma, o local onde irá congregar precisa ter, pelos menos, as seguintes características: bom estacionamento, ótima localidade – prioritariamente perto de casa – segurança, ar-condicionado, boa música, escola dominical para crianças, berçário, excelente pregação – de preferência que não fale em dinheiro nem de aspectos da fé como cruz, renúncia ou sacrifícios – bons programas e movimentos, além de recursos multimídia, é claro!

Na verdade, a relação do “Crente Bob Esponja” com a comunidade é uma relação baseada apenas no receber, e nunca no dar. Ele imagina que a igreja tem como função primordial servi-lo, que os programas foram criados para entretê-lo, que a mensagem foi feita para animá-lo, que os outros membros existem para confortá-lo, e que o pastor presta-se, apenas, a atendê-lo. Tudo gira em torno dele, inclusive Deus, que está ali, de plantão, como se fosse um maître, a sua inteira disposição, para solucionar todos os seus problemas.

Para o “Crente Bob Esponja”, questões como: compromisso, renúncia ao conforto, abrir mão do descanso, sacrificar a agenda, abdicar regalias, empreender recursos financeiros, servir aos necessitados, estão totalmente fora de questão, pois invertem o fluxo “natural” das coisas, não permitindo que ele seja o “centro do universo”. Por isso a grande maioria das igrejas experimenta uma dinâmica funcional (20/80), ou seja, 20% dos membros sobrecarregados, atarefados com uma infinidade de programas institucionais, para manter satisfeitos os 80% restantes, que não se envolvem com absolutamente nada, pois querem apenas “consumir”.

“Arqueologia” do Culto Cristão

Não seria possível, nesta reflexão, analisar os desdobramentos desta questão em todas as instâncias da vida eclesiástica e institucional. Portanto, para poder aprofundar um pouco a discussão, resolvi circunscrever o tema há alguns aspectos da celebração do culto. Para tal, preciso lhe fornecer um brevíssimo resumo sobre a evolução do mesmo.

Quando olhamos para as expressões cúlticas da fé judaico-cristã, partindo do Antigo Testamento, até os nossos dias, percebemos, claramente, um avanço gradativo e conceitual. Antes de mais nada, para alinharmos saberes, quero fornecer-lhe a definição de James Stanley Moore sobre culto. Ele afirma que: “cultuar é vivificar a consciência da santidade de Deus, nutrir a mente com a verdade de Deus, purificar a imaginação pela beleza de Deus, abrir o coração ao amor de Deus, e dedicar à vontade ao propósito de Deus”.

A primeira manifestação de culto nas Escrituras foi individual, através da oferta de sacrifícios em altares, no tempo dos Patriarcas. Na seqüência, surgiu o tabernáculo, que se constituía num “centro de adoração”, meticulosamente construído, com cerimônias simbólicas, sacerdotes paramentados, elementos litúrgicos, rituais de sacrifícios e expiação.

Com a construção do Templo de Jerusalém, iniciou-se uma nova etapa na vida do povo de Israel. As celebrações continuaram com seus aspectos rituais, acrescidas da música como elemento de adoração a Deus. Com a queda de Jerusalém, destruída pelos Assírios, e o consecutivo período do cativeiro babilônico, a alternativa encontrada pelo povo de Israel para a celebração do culto foi à construção de sinagogas, lideradas pelos anciãos, onde funcionavam escolas que ensinavam a guardar os preceitos e rolos das Escrituras, mas ali não se faziam sacrifícios.

No período neo-testamentário, com a irrupção da era apostólica, as reuniões e cultos foram gradativamente passando das sinagogas e do Templo para as casas, sobretudo por causa da perseguição e do martírio dos fiéis. As reuniões eram realizadas aos domingos, em função de ser o dia da ressurreição do Senhor, sem instrumentos musicais, mas com cânticos em uníssono. Nelas havia a oportunidade de se partilhar a fé com outros irmãos e celebrar a Ceia.

Nos séculos que se seguiram, o culto tomou formas mais elaboradas, com leituras, orações e pregações cada vez mais litúrgicas. Iniciou-se a veneração dos mártires, o batismo de crianças, e o estabelecimento dos sacerdotes como intermediários entre Deus e os homens.

Com a “conversão” de Constantino, no século IV, o cristianismo passou a atingir as altas classes da sociedade Romana, o que acelerou seu processo de institucionalização como religião estatal, demandando assim a elaboração de uma liturgia mais esmerada e a realização de cerimônias mais pomposas, com a presença de elementos protocolares, como incenso, vestimentas, gestos e procissões.

Na Idade Média, as igrejas tornaram-se enormes e ricamente ornamentadas, servindo tanto para o culto como para cemitério. As cerimônias eram cada vez mais suntuosas, acompanhadas pelo canto gregoriano, e as formas litúrgicas acabaram substituindo os seus significados. A partir deste momento, o culto passou a perder, de forma acentuada, os elementos mais preciosos que possuía, tornando-se assim uma celebração oca, baseada em ritos tolos, banais, dessignificados, esvaziados de sentidos para Deus e, porque não dizer, até para os homens.

A Reforma Protestante, no século XVI, tentou trazer algumas mudanças na estrutura do Culto, sobretudo em termos da liturgia, que passou a ser mais simples e objetiva. A música voltou a ter um caráter mais significativo, com o retorno do cântico congregacional, e a pregação do Evangelho passou a ser a parte mais importante dos ofícios divinos. De fato, algumas coisas mudaram, mas, em minha opinião, mudou muito pouco, sobretudo, porque não continuou mudando...

Igrejas Cheias de Pessoas Vazias

Nos dias atuais, quando olho para algumas celebrações da igreja, tenho a impressão de que Deus não está nelas! Sendo verdadeiro, se eu pudesse, em muitas ocasiões, também não estaria, ou, dependendo do “andar da carruagem”, tentaria me retirar de maneira incólume. “Culto”, no século XXI, se tornou algo tão despropositado e esvaziado de conteúdos que não é de admirar que a grande maioria das pessoas sinta calafrios só de pensar em ter que ir a um de nossos encontros. Faça o teste! Pergunte aos seus amigos, que não freqüentem igrejas, o que eles acham de um “culto” de igreja?! Você verá que o que eu estou lhe dizendo é a mais pura verdade.

Pensando sobre isso, lembrei do profeta Isaías: “não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação, e também as Festas da Lua Nova, os sábados, e a convocação das congregações; não posso suportar iniqüidade associada ao ajuntamento solene”. Quem está falando, não é o profeta não, mas o Deus do profeta! É a fala angustiada de alguém que está entediado com o culto que Lhe é prestado, pois ele se transformou numa reunião cansada, “mofada”, sem discernimento, entendimento, ou quebrantamento.

Não sei se você sabe, mas, durante 20 anos, servi a igreja como ministro de música. Uma das regras mais básicas para quem executa esta tarefa é estar sempre atento as reações das pessoas, pois o objetivo principal é conduzi-las a um momento de comunhão e adoração a Deus. Na teoria, essa “técnica” é maravilhosa. Na prática, entretanto, se tornou desastrosa...

A questão foi a seguinte: imagina você gastar tempo com Deus em seu quarto, orar, pegar seu instrumento, buscar se aperfeiçoar, ir ao ensaio, elaborar os arranjos, chegar mais cedo no culto, passar o som, motivar a banda e, na hora do “vamos ver”, encontrar uma igreja apática e sonolenta. Eu começava o louvor e 2/3 da congregação se quer havia chegado ao culto e, quando chegava, atrapalhava a mim, que estava dirigindo, e aos que estavam tentando adorar.

Mais trágico ainda é quando você está dando o melhor, e se depara com alguém a sua frente que, irreverentemente, está lendo o boletim, ou conversando com o vizinho, brincando com os filhos, ou, para a desgraça ser total, está dormindo! Por essas e outras, resolvi ministrar louvor de olhos totalmente fechados, pois, assim, nem via a “desgraceira” que estava acontecendo no meio do templo, e o povo ainda me achava super-espiritual!

Ora, tudo que não procede do interior do ser, não tem qualquer significado para Deus. É por isso que o “vinho novo”, ou seja, valores e verdade do Evangelho, não pode ser contido nos “odres velhos” da religião. Mais cedo ou mais tarde, arrebenta! Deus não está buscando freqüentadores de igreja, mas “adoradores que O adorem em espírito e verdade”. Não quer ouvir vãs repetições de credos, ou orações que mais se parecem com ladainhas, não deseja louvores mecânicos, nem ofertas materiais, que saíram do bolso, mas não procederam do coração.

Quebrando Paradigmas

Esses problemas não são novos; sempre existiram. Quando olhamos para algumas epístolas de Paulo, vemos claramente que o culto entre os cristãos primitivos também parecia estar perdendo o seu significado maior. No texto de Coríntios, por exemplo, existe forte ênfase do apóstolo quanto à disciplina necessária para se realizar os encontros. Na sua exortação, aparecem questões ligadas à irreverência, Ceia deturpada, maledicência, abusos, sectarismos, divisões, problemas morais, eclesiásticos e até doutrinários.

Na Idade Média, as questões eram outras, mas giravam em torno do mesmo eixo. O culto sofreu a adição de elementos do paganismo, surgiram doutrinas heréticas, como esmolas garantindo o perdão dos pecados, as ordenanças foram pervertidas, atribuiu-se poderes mágicos ao batismo, além de muitas outras distorções.

O resultado projetado de tudo isto foi o estabelecimento de uma religião adoecida, calcada numa espiritualidade totalmente desprovida de conseqüências para a vida. É por isso que o “Crente Bob Esponja”, herdeiro desta “fé”, acha que já faz muito freqüentando um culto de igreja. Ele entra pela porta, não raro atrasado, senta-se na cadeira, e prepara-se para “consumir” o que vier pela frente.

O “Crente Bob Esponja” não tem qualquer expectativa de participar ativamente de uma celebração. Na verdade, para ele, duas horas de culto são um verdadeiro tormento, por isso consulta tanto o relógio. Às vezes ele fica inquieto, sonolento, e se a pregação tiver mais do que 30 minutos, provavelmente, não voltará mais, pois isto lhe deixa profundamente entediado. Ele participa da Ceia do Senhor, mesmo sem compreender muito bem o que ela significa e, na confissão de pecados, pede displicentemente a Deus que o perdoe. Além disto, no momento do ofertório, que representa uma parte “crítica” da liturgia, sempre sai pela tangente, ou seja, ou vai beber água, ou se dirige ao toalete.

Diante de tudo isso, ainda há algo que possa ser feito? Há. Mas tem que se ter coragem. O ponto de partida, no meu entendimento, está associado à necessidade de quebrarmos um perigoso e antigo paradigma: que culto é um momento feito apenas para se receber, e não, prioritariamente, para oferecer!

No meu entendimento, esta inversão de valores talvez esteja associada à impregnação de nossa consciência pela “bendita” mentalidade consumista. Acredito também que, para nos libertarmos do problema, precisamos passar por uma espécie de “quimioterapia doutrinária”, ou seja, uma overdose de verdades das Escrituras sendo inoculadas em nossa mente e coração para quebrar os conceitos e valores equivocados nos quais acreditamos.

Vejamos, então, o que diz as Escrituras: “Que fazer, pois, irmãos? Quando vos reunis, um tem salmo, outro, doutrina, este traz revelação, aquele, outra língua, e ainda outro, interpretação. Seja tudo feito para edificação”. 1ª Co. 14:26.

Paulo está falando sobre a celebração do culto. Não me parece ser um encontro onde tudo já está pronto, e os ouvintes vão para lá apenas para ser “atores” coadjuvantes, espectadores imparciais ou “consumidores” passivos. Não! Ele nos aconselha a fazer a celebração de forma participativa, para que cada membro do Corpo possa contribuir com aquilo que o Senhor tem lhe dado, na intimidade da oração, nos momentos devocionais, nas experiências de livramento, no aconchego frente à dor da perda, na gratidão pelo perdão imerecido, na alegria decorrente da certeza da vitória, na paz que conforta o coração quebrantado. Creio ser esta a dinâmica que Deus deseja se, de fato, pretendemos cultuá-lo!

Ora, isso é possível? É! Mesmo que sua igreja seja litúrgica, como a minha, isto pode ser feito! Sim, o culto não precisa ser realizado apenas pelos sacerdotes! O culto é o somatório da oferta de dons e talentos de todo o povo de Deus! E mais, o melhor momento do culto, é o culto, ou seja, cada parte é singular naquilo a que se propõe. Creio firmemente que é possível desenvolver uma liturgia livre, não obstante ordenada, espontânea, não obstante organizada, de tal forma a conceder ao Espírito de Deus a liberdade que Ele deseja para agir poderosamente em nosso meio.

Portanto, quebre os paradigmas! Vá ao culto querendo contribuir com algo! Peça para dar um testemunho, ou para fazer a leitura de um texto. Ore por quem está ao seu lado, bata palmas no louvor, ajude a receber os que estão chegando, ou, quem sabe, a arrumar o templo, operar o datashow, contribuir com a montagem do som, distribuir o boletim, etc. Há tanta coisa que você pode fazer! Então, por que não faz? Quer começar com algo importante? Que tal chegar na hora?

A Conversão do “Crente Bob Esponja”

Chegou à hora de voltar ao Bob Esponja! No episódio que estava vendo com a Gabi, o pobre coitado se encontrava à beira da morte, pois estava na terra e precisava, desesperadamente, voltar para o oceano. A questão é que a superfície epitelial esponjosa do Bob é capaz de captar toda a água que ele necessita para estar bem e confortável. Na terra seca, entretanto, isso não é possível. Assim, por conta do calor do sol, ele começou a ficar fraco, dispnéico, quase perdendo os sentidos. Não tivesse voltado para o mar, certamente teria morrido.

Quando o episódio acabou, em meio às gargalhadas da Gabi, saí pensando sobre a semelhança que há entre o Bob Esponja e o “crente de igreja”. É que ambos são bonachões, ingênuos, e precisam de sua “zona de conforto” para sobreviver. Se você tentar tirar o “crente de igreja” de seu habitat natural, que é o banco da igreja, ele começará a passar mal e ficará sem fôlego. Sua “rotina eclesiástica” já está definida e, por isso, você não deve dar-lhe qualquer atribuição ou desafio, pois isso pode, simplesmente, “matá-lo”!

Não pense que será possível, a não ser que o “Crente Bob Esponja” se converta, tirá-lo do seu “oceano” de confortos e regalias, para botar a “mão na massa”. É que, via de regra, é mais fácil ele morrer totalmente desidratado, ou seja, esvaziado de significados para viver a existência, sobretudo pela aridez de sua relação com Deus, que foi apenas capaz de produzir uma religiosidade esturricada, do que se lançar em fé e amor numa comunhão íntima e prazerosa com o Pai, fruto de uma disciplina constante baseada em oração e adoração, que é o “culto racional”.

Creio que se isso não acontecer, ou seja, uma transformação de dentro para fora, o “Crente Bob Esponja” continuará a viver nesse grande “abacaxi” que se tornou a sua vida, assim como o personagem do desenho também vive num. A conseqüência disto é que ele será eternamente criança, ingênuo, praticando uma fé desprovida de propósitos, uma espiritualidade esvaziada de sentidos, um cristianismo apenas de retórica. Poderá ir aos cultos, ou até freqüentar outras reuniões de igreja, porém, quanto mais fizer isso, mas “seco” se tornará!

Não se esqueça, todavia, que Deus é poderoso e pode, num momento de crise, quando o “Crente Bob Esponja” estiver “agonizando” em “terra seca”, se usufruir da situação para levá-lo a ter um encontro que mude, de forma definitiva, toda a sua vida, ressignificando assim os seus dias. Por isso, nunca desista dos “Bob Esponjas” de sua comunidade, pois amanhã, quem sabe, um deles poderá se tornar até o pastor da igreja! Comigo foi justamente assim...

Conclusão

Certa vez, conversando com um pastor amigo, alguém já calejado no ministério, ouvi o seguinte: “rapaz, às vezes eu me sinto como se fosse um animador de auditório, ou um palhaço de circo, tentando motivar as pessoas para que elas prestem um culto com o mínimo de significados para Deus. Me esforço, faço “malabarismos”, “pirotecnias” e tudo o mais, contudo, confesso: é difícil...”. Achei a afirmação curiosa, sobretudo, porque essa é a impressão que tenho, por vezes, quando estou celebrando cultos. Sinto-me como se estivesse com uma enorme mangueira, jogando água sobre uma multidão de “Bob Esponjas”. Dá para entender?!

Sonho em ver uma igreja transformada pelo Espírito Santo, com pessoas que entenderam o significa que há em oferecer um culto a Deus. Sonho com homens e mulheres que desejem ir além do banal, do corriqueiro, que professem uma fé que não seja apenas verborragia, que pertençam a uma comunidade que não seja uma sacola de membros esquartejados, que possuam uma consciência apaziguada em fé, sem julgamentos, presunções ou disfarces. Sim, como Martin Luther King, eu também tenho um sonho...

Contudo, sei que para chegar até este ponto, muita “borracha” ainda tem que ser queimada. Digo isso porque creio que o concerto na Casa de Deus começa pelos pastores e líderes, por aqueles que influenciam pessoas, tomam decisões, exercem autoridade e ensinam a Palavra. Chegou à hora de chamarmos para nós mesmos a responsabilidade de produzir, nesta geração, arrependimento e quebrantamento, enquanto ainda há tempo. Façamos como fez o profeta Amós, quando afirmou: “prepara-te ó Israel para te encontrares com o teu Deus”!

Quanto a mim, a impressão que tenho é que quanto mais rezo, mas assombração me aparece! Por isso, não ficarei assustado se, qualquer dia desses, quando estiver entrando na igreja para celebrar o culto, encontrar entre os presentes o Mickey Mouse, o Pato Donald, o Zé Colméia e o Pernalonga. É que eu já vi tanta esquisitice em igreja que, uma a mais, uma a menos, não vai fazer qualquer diferença...

Agora, medo mesmo vou ter se alguém da comunidade, querendo ser hospitaleiro e cordial com essa turma, se arriscar a perguntar a um deles o que estão fazendo ali. Sim, é que eu tenho a nítida impressão que a resposta será algo do tipo: “viemos hoje aqui porque nos disseram que o “Pateta” iria pregar!”. É, amigo, não se iluda não, por vezes, pastor parece mesmo é com pateta! Durma com um barulho desses...

Sola Gratia !

Carlos Moreira

O Clube da Esquina


Na década de 1960 surgiu um movimento musical em Minas Gerais que influenciou toda uma geração e fez despontar, mais tarde, grandes nomes da música popular brasileira, como Milton Nascimento, Lô Borges, Flávio Venturini, Wagner Tiso, Fernando Brant, Beto Guedes e os integrantes da banda 14 Bis.

Tudo começou quando essa moçada, que já se conhecia, passou a se reunir semanalmente para compor, tocar violão e jogar “conversa fora”. Depois de certo tempo, de tanto ficarem na esquina da Rua Divinópolis, no bucólico bairro de Santa Teresa, em Belo Horizonte, Milton e os irmãos Borges resolveram batizar o encontro de “clube da esquina”, uma espécie de irmandade que se unia para falar de música, política, poesia, e tomar uma cachacinha, que ninguém era de ferro! “Eita trem bão!”.

Quando imagino a cena daquela “meninada” reunida no meio da rua, fico supondo que quem passava por ali, sem saber nem da procedência, nem da intenção, julgava tratar-se de um bando de vagabundos, boêmios irresponsáveis, malandros de ocasião, poetas fracassados, amantes desventurados, filósofos de botequim e beberrões. Quem, em sã consciência, poderia imaginar que daqueles encontros despretensiosos sairia tanta gente famosa e tantas canções maravilhosas?

Pois bem, pensando nessas “noitadas” de “BH”, e na riqueza produzida a partir daquela “ciranda de saberes”, acabei me lembrando dos muitos caminhos e encontros que Jesus experimentou na existência. Fiz a correlação por que acredito que por onde o Senhor passou, em cada cidade ou lugarejo, sempre quis, de alguma forma, estabelecer uma espécie de “Clube da Esquina”, ou seja, um lugar de encontro – no meio da rua, na casa de alguém, dentro da sinagoga, ou na beira do caminho – onde fosse possível gente comum “sentar na roda”, de igual para igual, e conversar com Ele, partilhar a vida e tornar perceptível os dramas e medos que advém do simples fato de ser.

E o Galileu gostava de gente, de prosa e de fazer amigos. Minha figura de Cristo sempre esteve associada a de alguém carinhoso, aquele sujeito que fazia questão de dar um abraço apertado, um beijo duradouro, um “cara” por quem você se apaixona logo no primeiro contato. Eu penso em Jesus como um homem contagiante, de riso farto, olhar penetrante e gestos generosos, alguém capaz de num “papo simples”, falar da beleza e do significado da vida com tal intensidade e singularidade, que não “converter” a Ele tanto a alma quanto o espírito era algo, simplesmente, impensável. Zaqueu que o diga...

Refletindo sobre estas questões, lembrei-me de um texto das Escrituras que expressa bem o que estou tentando conjecturar. Certo dia, “estando Jesus em casa, foram comer com ele e seus discípulos muitos publicanos e pecadores.Vendo isso, os fariseus perguntaram: “Por que o mestre de vocês come com essa gente?””. Mt. 9:10-11.

Que tal uma exegese básica? Jesus está na casa de Mateus, um conhecido coletor de impostos, sentado à mesa, rodeado de picaretas, intermediários de negócios duvidosos, traficantes de influência, agiotas e toda sorte de gente de má reputação. Quem olhasse de longe, não teria nenhuma dúvida em afirmar que Ele havia se associado à escória local.

Para o Senhor, todavia, isso não representava problema algum. Se fosse comigo, pensaria logo no ministério, na reputação, na imagem... Mas Jesus? Que nada! Não estava nem aí. Sentou com a “moçada” e comeu o guisado de bode sem qualquer problema de consciência. É que na mesa que Jesus senta sempre há espaço para todo tipo de gente, sobretudo gente que se dessignificou como gente e que pode, a partir de um encontro com Ele, se perceber como gente novamente.

Naquele dia, entretanto, sob o teto “profano” da casa de Mateus, que existencialmente se fez “Clube da Esquina”, havia um cantinho para toda sorte de indivíduo, menos para a “trupe” indesejada dos religiosos de Israel, impregnada pela presunção e julgamento. Naquela “muvuca”, fariseu não entrava, e o motivo era um só: eles não podiam conceber a possibilidade do Sagrado se “misturar” com o profano, o Divino com o humano, o Eterno com o temporal. Desgraçadamente, não conseguiram discernir que, em Cristo, Deus e Homem se tornou um só ser e, em conseqüência disto, toda barreira de separação existente foi abolida.

Aí, para completar de vez a desgraceira, Jesus senta-se a mesa com a “ralé”, e quase que propositalmente passa a ignorar a suposta “elite” religiosa, que imaginava merecer deferências especiais em função de sua “pedigree espiritual”. Ficou foi tudo “na geral”! E a “rafaméia”, espremida na saleta, que não tinha nenhum entendimento das mazelas e salamaleques daquele arquétipo do “sagrado”, comia com alegria o pão e o vinho, lambuzava os beiços com o assado e deixava o riso correr frouxo pelo ar.

No final das contas e, de forma surpreendente, o simples almoço do “Clube da Esquina” acabou foi se transformando numa extraordinária oportunidade para que se fizesse saber em Israel, que só a Graça de Deus era capaz de incluir os excluídos e, ao mesmo tempo, excluir os que a si mesmos se julgavam inclusos. De uma “cajadada” só, o Galileu desconstruiu o “modelito” da eleição espiritual, baseado no preconceito, desmascarou a espiritualidade calcada na aparência e, de quebra, ainda embaralhou o “quengo” da “fariseada” de plantão, como, aliás, só Ele sabia fazer...

Diante de tudo isso, fiquei pensando: “quem me dera ser achado digno de sentar numa mesa como aquela!”. Como seria bom poder freqüentar um lugar onde fosse possível papear, tratar de coisas legais, falar de poesia, filosofar, tomar um cappuccino, encontrar gente resolvida, de bem com a vida, em paz com Deus e com seus semelhantes. Aí caí na real de que, na prática, ainda não achei um lugar assim...

Encontro de “crente”... Você já participou de um? Não ria não! Talvez ainda venha a participar... A maioria, amigo, é de enlouquecer. Mesmo quando o propósito é lazer, fica devendo no que diz respeito a prazer. Não raro, até os que se propõem a tratar de coisas, supostamente, “espirituais”, por vezes, se tornam insuportáveis!

Ajuntamento de “crente” ou é para falar de ministério e movimento, ou para fofocar sobre o pecado de alguém, de preferência o do pastor. Se aparecer um tocador e um violão, aí a “reunião” “corre o risco” de virar “vigília de oração”, umas com muita gritaria, e pouca ou nenhuma unção; outras com uma infinidade de lamúrias e choramingos, e quase nada de gratidão.

Quem passar ao largo, ou olhar da esquina, logo verá que aquele encontro não tem nada a ver com um “Clube da Esquina”, pois ao invés de fomentar pacificação interior, quietude do ser e quebrantamento de alma, produz apenas fadiga mental e ressaca espiritual, pois até mesmo o sagrado, se for mal “processado”, só é capaz de gerar enfado e canseira.

Se você for sincero, talvez chegue à conclusão de que muitos dos nossos encontros têm sido terríveis! Uns o são pela total falta de propósitos, e outros pela ausência de direção. A impressão que tenho é que é reunião demais, para assunto de menos... Ou tudo é muito técnico, ou esvaziado de sensações, pois quando o rito vira mito, petrifica o coração, embaça os sentimentos e desfaz a razão.

Ah, como seria legal ter uns encontros diferentes, onde a gente pudesse tratar de qualquer outra coisa, menos de “papo de igreja”. Mas parece que falta-nos assunto e, por conta disso, caímos sempre na vala comum do “besteirol “religioso”. Não raro, fica tudo muito parecido com “papo” de fariseu. Em cartaz sempre está os bastidores da instituição, a “fofocalhada” do fulano que separou da mulher, a última bobeira que o pastor disse no púlpito, o ministério tal que deu uma mancada, e por aí vai... Um suplício sem fim!

E aqui, me permita deixar algo bem claro: não estou culpando nem criticando ninguém de coisa alguma! Quem quiser que ponha sobre si a carapuça! Os que me conhecem sabem que só prego a partir de mim e para mim mesmo. Se a mensagem, todavia, “atinge” a outros, não é obra minha, é coisa de Deus, portanto, se não gostar, entenda-se com Ele. Expresso aqui apenas a minha angústia materializada na alma, e essa em função de saber que, como membro desta “confraria”, posso fazer pouco, ou quase nada, para que isso mude...

Eu não sou santo não. Longe disso! E sei como a “máquina” funciona, já faz tempo. Mas confesso: estou cansado mesmo! A “coisa” toda está me fazendo muito mal. Se você quiser me ajudar, não me traga certas “notícias”, nem me procure para tratar questiúnculas de igreja... Não quero nem saber! O “crentês” me dá enjôo. E, para fechar com chave de ouro, ainda tem o diabo, que está em quase tudo que vemos ou fazemos. O “capeta” na “igreja” tem mais status e poder do que Jesus. Aí, “patrão”, não tem quem não surte!

Que tal se acabássemos com tudo isso! Vamos fazer um jejum, rasgar diante de Deus a alma e o coração, pedir perdão ao Espírito Santo por tanta insensatez, ter a coragem de desmantelar tudo o que construímos a partir de nós mesmos, para permitir que Deus possa, ainda que através de nós, construir o que Ele deseja.

Que tal repensarmos a nossa fé? Que tal repensar, até mesmo, a igreja?! Isso! Se nos afirmamos como “Reformados”, por que, então, não damos seqüência na “reforma”?! O que é mais importante: a Instituição ou o Reino de Deus? Promovermos um “Clube da Esquina”, que seja capaz de viabilizar encontros humanos para que a Graça seja manifesta aos caídos, ou investirmos numa “confraria de membros esquartejados” – mal quistos, mal resolvidos, e mal amados?

O que sei, é que na Parábola da Grande Ceia, em Lucas 14, depois da desfeita que os convidados fizeram ao Anfitrião – gente do “clero”, líderes de ministérios, professores da EBD, ministros de música, etc. – Ele mandou foi buscar nas ruas e becos da cidade toda gentalha expurgada da vida – cegos, coxos, pobres e aleijados – gente desgraçada, que se amontoava nos clubes da esquina, gente que a gente acha que não é gente, e é incapaz de entender que é justamente essa gente que Jesus quer fazer gente e que, se assim for, será gente bem melhor do que a gente é!

Igreja é um ajuntamento em torno da “mesa” de Cristo, pois só quem partilha do pão e do vinho é que pode entender que a proposta é para o refazer do ser e, a partir disto, desenvolver uma espiritualidade sadia, tendo como matiz as dores e perdas da existência, pois só por meio delas é que a alma ganha musculatura e peso de gravidade, uma vez que aprendeu, pela via da pacificação interior, que a justiça que justifica o justo procede apenas da fé.

Domingo passado preguei sobre a parábola do filho pródigo... Sempre que leio a história, fico encafifado por que o Pai, ao receber o filho, não fez um culto de ações de graças ou uma vigília de oração? Por que não promoveu um “louvorzão”, ou uma noite de testemunhos? Será que o escriba, quando registrou o texto, confundiu a expressão “fazer uma reza”, com “fazer uma festa”? Que nada! Foi “balada” mesmo, até o dia amanhecer! E tinha um motivo: “Este meu filho estava morto e reviveu; estava perdido, e foi achado”.

Sinto falta deste tipo de encontro, desse “aroma” de festa. Se pudesse, criaria um “Clube da Esquina”, um “pedaço de chão”, sem dono, sem trono, em qualquer lugar, numa encruzilhada da vida, apenas para podermos conversar de forma leve, solta, expressar nossos sonhos, fracassos, perdas e alegrias... Bom seria se fosse um “ambiente” sem geografia, mas construído a partir da liberdade que é própria dos que amam a Deus, dos que estão fazendo o caminho enquanto o caminho vai se fazendo neles.

Deixe-me lhe fazer uma pergunta: você tem amigos na igreja? Amigos mesmo? De verdade? Pra qualquer “parada”? Em qualquer circunstância? No tempo bom e no tempo mau? Amizade que não se acabou quando você mudou de denominação, ou de paróquia, ou de endereço, ou de telefone, ou de gostos? Você tem? Você é que é feliz! Os poucos que eu tinha não enchiam nem uma mão. Hoje, sobram ainda mais dedos... Minha tristeza é saber que nem Cristo consegue, por vezes, unir as pessoas em torno de algo. E o pessoal de BH, do “clube da esquina”, continua sendo amigo até hoje...

Sonho com um “cantinho” onde fosse possível reunir gente boa de Deus. Um lugar onde reunião não tivesse que ser só de oração, pois, afinal, um cineminha, um teatro, ou um show de música não vai levar ninguém para o inferno! É “coisa do mundo”, eu sei, mas não é do outro mundo não, é deste aqui mesmo! “Foi para a liberdade que Cristo vos libertou! Não se submetam, novamente, a julgo de escravidão!” Não esqueçamos que, por questões semelhantes a essas, nosso Senhor foi chamado de “glutão, beberrão, amigo de pecadores e publicanos”. Por isso, não se deprima não...

Para terminar o texto, pois já é madrugada, fiquei pensando que assim como Jesus, existencialmente, criou vários “Clubes da Esquina”, nós também poderíamos criar um! Uma coisa, todavia, não devemos esquecer: é que todo encontro, de dois ou três, feito em Seu Nome, ou seja, a partir da perspectiva dEle em nós, só tem significação se for realizado em verdade e amor, e só ganha propósito se puder construir no ser paz para a alma e bem para a vida.

O que for diferente disso, meu “mano”, nos levará apenas de volta à mesmice de sempre. Vamos continuar nos encontrando, e na nossa “mesa” pode até ter todo tipo de “figurão de igreja”, com assuntos dos mais “espirituais” possíveis, mais, ainda assim, será uma reunião totalmente dessignificada. Ao final, quando encerrarmos os “trabalhos” e formos pelo caminho para nossas casas, lembraremos, de forma melancólica, aquela velha canção do Sérgio Bitencourt “naquela mesa tá faltando “Ele” e a saudade “dEle” tá doendo em mim”. E essa ausência “parceiro”, faz toda diferença..

Sola Gratia !

Carlos Moreira

Sexo Entre Jovens: Coando o Mosquito e Engolindo o Tiranossauro


Pastor, sexo antes do casamento é pecado?”. Se você é um clérigo ou um líder, esta é uma das perguntas que você mais ouve quando está no meio de jovens. Obviamente, a grande maioria responde: “sim, é pecado”. E eu, o que penso sobre o tema? Bem...

Eu penso que a igreja trata a questão como se ela não existisse, quase com desdém. O “problema” só se materializa quando aquele casalzinho que senta lá no canto, acompanhado ou não da família, nos procura no gabinete pastoral para informar-nos que, em 9 meses, teremos mais um membro para ser batizado na família de Deus! Aleluia!...

A verdade é que a igreja, normalmente, faz vista grossa para essa questão. O casal está ali, juntinho, namorando e, se não der bobeira, se transar com camisinha, se fizer tudo direitinho, não vai ser muito incomodado pela ortodoxia doutrinária vigente. Aqui, ali, terá de ouvir coisas do tipo: “fornicação é pecado”; “quem transar antes de casar perde a benção de Deus”; “masturbação entristece o Espírito”; e por aí vai... Ora, isso tudo, com um pouco de cinismo e cara de pau, dá para ir levando. Dá?...

Agora, quando a “bomba” explode, e o bebê está a caminho, aí a coisa muda de figura, pois todo mundo fica furioso, sobretudo a “fariseada”. Engravidou, tem que casar! Será?... O casalzinho, coitado, será exposto aos extremos, execrado, em alguns casos, ficará afastado temporariamente da Ceia, ou, em outros, submetido a uma “disciplina” maluca qualquer. Quase certamente, sofrerá muito mais do que seria preciso, contudo se tornará um “exemplo” para todos!

Ora, em tais situações, as conseqüências, obviamente, virão em curtíssimo prazo, pois, sem apoio da comunidade, sem orientação e, em muitas situações, sem a ajuda da própria família, o jovem casal, sem qualquer preparo para a vida conjugal, estará separado em 1 ou 2 anos no máximo. Estou, neste momento, com um caso deste na igreja, herdado de outra “comunidade”...

Quer falar sério sobre o tema? Quer tratar a situação com coragem? Então vamos às Escrituras. Qual o padrão bíblico para casamento? Vou simplificar: deixar pai e mãe, ou seja, possuir capacidade de romper os vínculos emocionais e financeiros com a família; voto público, que é assumir para a sociedade, seja pela via do casamento civil ou do religioso, que os dois passam a constituir uma família, com todas as implicações vigentes; e, finamente, manter relação sexual.

Nos dias de Isaque e Rebeca a coisa era assim, muito simples. O garoto começava a se coçar demais, olhava as cabras de forma estranha, e aí o Pai, macaco-velho, dizia: “este menino está precisando casar”. Arrumava-se uma noiva, da parentela mesmo ou da vizinhança, desde que fosse da mesma fé, o pai doava ao filho um pedaço de terra, meia dúzia de cabras, uma vaca leiteira e pronto! O sujeito entrava na cabana com sua “gazela” e estava tudo consumado. Que benção!

E como é hoje? O menino e a menina chegam aos 15, 16, 17 anos e começam a namorar. Estão terminando o ensino médio e ainda terão pela frente o vestibular e 4 ou 5 anos de faculdade. Vencida esta etapa precisarão trabalhar, conseguir um bom emprego. Em seguida, vão comprar um carro legal, depois o apartamento financiado e, só então, poderão pensar em se casar. E olha que eu estou falando de jovens cristãos sérios, que começaram a namorar com o propósito de, um dia, se casarem. Mas, convenhamos, eles são à exceção da exceção da exceção!

Ora, eu sei, por experiência, que a grande maioria da meninada quer é curtir a vida, “ficar” bem muito ao invés de namorar, que dá muito mais trabalho, transar o tanto que puder, pois muitas relações darão mais experiência – trágico equívoco – e, só quando se estiver chegando na casa dos 30 é que começarão a desacelerar o “motor” para pensar em constituir algo sério, ou seja, casar.

Agora, uma questão: pensando no primeiro exemplo, o do jovem casal cristão sério, que começou a namorar cedinho, o que eles farão para segurar os hormônios nesta sociedade erotizada na qual vivemos, onde propaganda de pneu tem mulher pelada? Me responda mesmo: dos 15 até chegarem aos 30 anos, quando estarão em condições, dentro dos padrões estabelecidos em nossa cultura, para se casar, como eles lidarão com estas questões? Vão jejuar e orar? Ora meu mano, faça-me o favor... Você fez isso?

Aí vem a igreja, e seus ilustres representantes, naquela santidade medieval, e diz para o casalzinho: “olha, vocês devem se guardar um para o outro. Sexo antes do casamento é pecado, viu?”. E fica a meninada com a pulha na cabeça: transar ou não transar, eis a questão! E ainda tem umas almas sebosas que dizem: “quem estiver abrasado, então que se case”. Ótima solução! Quero eu lhe dizer que o sujeito não está abrasado não, ele está em chamas já há muito tempo! Isso é que é fogo!

Na verdade, em determinadas circunstâncias, só existem dois caminhos: como pastor, sei o que estou afirmando: ou o cara deixa a namorada “em paz” e vai para a internet ver sacanagem de todo tipo e, como o pecado só se aprofunda, pois “um abismo chama outro abismo”, mas cedo ou mais tarde ele estará com prostitutas em sua cama, ou vai transar com a “irmãzinha” e ficarão os dois num complexo de culpa sem fim, pois recairá sobre eles toda a ortodoxia protestante dogmática e fundamentalista pregada e inoculada em suas mentes durante anos. Estou exagerando?!

Alegre-se, jovem, na sua mocidade! Seja feliz o seu coração nos dias da sua juventude! Siga por onde seu coração mandar, até onde a sua vista alcançar; mas saiba que por todas essas coisas Deus o trará a julgamento”. Ec. 11:9.

Estou eu aqui aconselhando os casais de namorados a transar? Não coloquem palavras em minha boca! Sou defensor de uma teologia liberal e por isso não levo em consideração os preceitos de santidade das Escrituras? Vocês não me conhecem para afirmar isto. Então, o que estou querendo dizer, afinal? Duas coisas: discernirmos o tempo em que vivemos, com todas as suas idiossincrasias, e investirmos na formação de uma geração que tenha uma consciência compatível com o Espírito do Evangelho. O mais, queira me desculpar, é tapar o sol com a peneira, é tratar da conseqüência, e não da causa, é jogar o “lixo” para debaixo do tapete.
O texto de Eclesiastes nos dá uma dica do que podemos fazer! Ensinar os jovens! Podemos dizer-lhes “façam suas escolhas, tracem seus caminhos, sigam suas rotas, construam seus mapas, aproveitem a vida! Mas saibam: tudo na existência humana tem conseqüência, pois há um princípio bíblico que afirma que aquilo que o homem semear, isto também ceifará”. Fato é que Deus criou o sexo e o casamento com um propósito e, só imersos em Sua vontade, nos realizaremos em nossa sexualidade e conjugalidade.

Olha moçada, namorar com 10, 20, 30 pessoas diluirá sua alma, banalizará em seu coração o significado de relacionamento, tornará o sexo coisa trivial e não aquilo para o qual ele foi concebido. Você perderá todas as referências sobre lealdade, amizade, cumplicidade e, dificilmente, será capaz de construir uma família sadia, um casamento bem sucedido, uma relação para toda a vida, pois a frase “que seja eterno enquanto dure”, fica linda do ponto de vista da poesia, mas, existencialmente falando, é um desastre sem precedentes.

Sei que este é um tema que ninguém quer tratar, ou escrever, pois é “nitroglicerina” pura! Almocei hoje com um amigo que me disse: “tu vais mexer nisso?”. Eis aí um de nossos problemas: evitar lidar com o que está diante de nossos olhos! A igreja, no que diz respeito a estas questões sexuais, e olha que eu estou só levantando a ponta do iceberg, prefere coar o mosquito e engolir o tiranossauro rex, é viver no “faz de conta”.

Se eu tenho a solução? Ora, isso é um problema que cada um deve lidar, pois cada um construirá na terra seu caminho com Deus e isso conforme sua própria consciência. Fico impressionado como crente gosta de fórmulas feitas para resolver suas questiúnculas. Agora, quanto a mim, perdoem-me a sinceridade, prefiro engolir o mosquito e, de preferência, com Coca-Cola.


Carlos Moreira

Dormindo com o Inimigo: Quando o Sexo no Casamento Torna-se Pecado!


Há alguns meses tenho escrito aqui no Genizah. O convite foi feito pelo meu amigo, bispo Hermes Fernandes, mas foi o Danilo quem deu o aval final. Neste curto período, como sou um escritor eclético, falei de quase tudo: doutrina, filosofia, apologética, escatologia, eclesiologia, e coisas mais... Com um jeito muito particular, deixei escorrer de dentro de mim farelos de palavras, coisas que vivo e que vejo, pois no fundo sou um cronista existencial, um observador do cotidiano, andarilho da vida.


Contudo, de todos os textos postados, apesar de perceber a generosidade do público em geral, um em especial me levou a “notoriedade”: “Sexo Entre Jovens: Coando o Mosquito e Engolindo o Tiranossauro”. Tentando ponderar sobre o tema, acabei levando tanta “pancada” (risos) que o post hoje é o primeiro lugar entre os mais esculachados do blog! Fiquei zonzo... Foi “madeira de dar em doido”.


Aí eu tomei gosto pelo negócio... Como sou polêmico por natureza, tive uma idéia que, imagino, vai despertar “paixões” e “repúdios”. Desta vez, contudo, vamos falar do sexo no casamento e quando ele se torna pecado mesmo respaldado pelo “contrato” que foi assinado na igreja. Preocupamo-nos tanto com o “sexo antes do casamento” que, não raro, acabamos esquecendo do sexo no casamento!


Bem, para falar sobre o tema, de alguma forma, é preciso conceituá-lo. Não sou especialista no assunto, mas sou praticante há 20 anos (risos). Desta forma, imagino ter obtido alguma autoridade para discorrer sobre a questão. Além do mais, tenho ouvido durante décadas casais com os mais diversos tipos de problemas e conflitos na área sexual, o que se constitui vasto “material” para utilizar num artigo.


Com vistas a chegar a algum ponto de “iluminação” da consciência, vou tentar dizer logo de cara o que não é sexo. Será mais fácil assim. Sexo não é coito, ou seja, não é o ato em si, com carícias, preâmbulos, penetrações e orgasmo. Os animais fazem isto, mas não desfrutam da grandiosidade daquilo que Deus planejou para nós, humanos. Coito, é parte do sexo, mas ainda não é sexo.


Sexo é encontro de corpo, sim, mas também de alma e de espírito. Sexo é algo muito mais profundo e complexo do que a grande maioria de nós entende ou usufrui. O sexo começa no olhar, na sedução, na provocação, no desejo acalentado pacientemente. Depois ele passa pelas afinidades, complementaridades, pela admiração, o brilho no olhar, a paquera. Em seguida, vem a questão da “química”, do cheiro, do gosto, das formas, dos toques. E então, finalmente, vem a parte espiritual. Sim, sexo é coisa muito espiritual! Aliás, é mais espiritual do que muitas outras que imaginamos.


Fazer sexo com pessoas de “outro espírito” é deitar-se com alguém que tem uma natureza diferente da nossa e isto, obviamente, tem implicações para muito além do que se pensa ou se vê. Por isso, não à toa, Paulo fala sobre os desdobramentos deste tipo de sexo feito com a prostituta, ainda que ali o que ele quer tratar é muito mais sobre o “espírito de prostituição” do que da prostituta em si. Mas este tema é por demais complexo e eu falo dele em outra hora...


Se você quiser aprender alguma coisa boa sobre sexo no casamento, não precisa ler livros que dão conselhos sobre o tema, sobretudo estes que estão aí nas prateleiras e que são, na esmagadora maioria, baboseira pura. Faça o seguinte: abra a sua bíblia e debruce-se sobre o livro de Cantares. Ali está a mais linda poesia sobre o sexo, com metáforas das mais ousadas e pertinentes que farão um leitor atento e inteligente, que consiga ir além da “letra”, apropriar-se das alegorias e, assim, aprender muita coisa bonita e poética para a vida a dois.


Mas este não é um texto sobre sexo, e sim sobre o fato de se estar casado e fazer um tipo de sexo que é pecado diante de Deus. Sim, isto é possível e mais comum do que se imagina. Para entrar de cabeça na questão, vou usar apenas um texto dos muitos possíveis, pois ele vai me ajudar a pontuar o assunto.


Não se recusem um ao outro, exceto por mútuo consentimento e durante certo tempo, para se dedicarem à oração. Depois, unam-se de novo, para que Satanás não os tente por não terem domínio próprio.”. 1ª Co. 7:5. O texto é riquíssimo, mas vou usar apenas esta parte dele: ““Não se recusem um ao outro, exceto por mútuo consentimento...”.

Em primeiro lugar, vamos esclarecer algo importantíssimo: não se “recusar um ao outro” não trata apenas da incidência da relação, ou seja, da agenda sexual, mas de algo com implicações mais profundas. Diferentemente do que, talvez, a maioria pense, não se recusa o parceiro apenas quando se diz a ele: “hoje não”, seja por que motivo for. Esta é apenas a forma mais usual.


Na verdade, podemos recusar alguém de muitas maneiras, inclusive inconscientemente. Aliás, podemos recusar um parceiro fazendo sexo com ele! Recusa é algo que acontece não só nas proibições físicas – “isso não; aqui não; desse jeito não; não gosto assim;...”, mais também a nível emocional. Neste segundo caso, o problema é subliminar, pois a resistência fica “presa a alma”, aos sentimentos, e até ao intelecto.


Mais há ainda outra frase chave nesta citação de Paulo e nós precisamos explorá-la melhor: “mútuo consentimento”. Sabe o que significa? Não é tão simples como talvez pareça. Não trata apenas de concordar sobre local e hora de fazer sexo, mas de algo muito mais profundo, ou seja, das práticas, dos “acordos”, dos “jogos” e “brincadeiras” que o casal se permite fazer quanto está neste nível de intimidade sem que nenhum dos dois se constranja, se sinta desconfortável, “invadido”, desrespeitado ou desconsiderado.


Então, usando o texto como uma referência, posso concluir que sexo entre um casal é algo que é feito sem privação, sem recusas, sem desculpas, sem subterfúgios, sem mentiras, sem disfarces, sem “véus”, no bom português: sem enrolação! E posso também arrematar que este sexo é feito de forma consensual, pactual, prazerosa – uma vez que um busca o que dá mais satisfação ao outro –, confortável, digna, respeitosa, equilibrada, ou seja, resumindo tudo: sexo é um encontro profundo de um ser com outro ser.


Posto isto, ainda que de forma superficial, pois senão o texto ficaria longo demais, posso agora lhe dizer, de forma bem explícita, quando o sexo é pecado NO CASAMENTO. Sexo é pecado quando é feito sem desejo, quando um dos cônjuges está ali pela “obrigação”, apenas para “esvaziar” o desejo retido do outro. Sexo é pecado quando é feito sem discernimento, de forma animalesca, quando é sexo pelo sexo, sem que ambos percebam que há algo que está acontecendo para muito além do físico, da carne, dos instintos.


Sexo é pecado quando eu o faço com minha mente “vagando” em outros “lugares” ou, pior, quando ele projeta alguém naquela “cena/ambiente” que ali não está, nem poderia estar, ou seja, quando faço amor com um(a) e ao mesmo tempo penso em outro(a). Sexo é pecado quando eu não respeito os “limites” do meu parceiro(a), quando, egoisticamente, estou em busca apenas do meu prazer, ainda que isto traga desconforto e até dor a ele(a). Isso quebra a “regra” da consensualidade; é pecado!


Sexo é pecado quando eu preciso de recursos periféricos para produzir excitação. Nestes casos, em particular, quero falar precisamente de vídeos pornográficos. Esta, inclusive, é uma das práticas mais comuns entre os “evangélicos”. Credo! O vício na pornografia vai diluindo a alma das pessoas, pois a substância interior se dissolve e vira uma pasta. Por isso tantas taras, bizarrices, esquisitices. Se você pudesse escutar o que eu ouço cairia duro! Sexo com o parceiro e a televisão passando vídeo de sacanagem é pecado!


Sexo é pecado quando eu não dou prazer ao outro. A coisa mais comum com a qual lido é ouvir das mulheres que elas jamais tiveram um orgasmo com seus parceiros em anos de casamento. E o “marmanjão” se achando “o cara”! É pecado! Mostra o descaso para com o outro, o descuido, a falta de percepção de seu constrangimento no ato, a falta de maturidade que me leva apenas a buscar meus 15 minutos de prazer em detrimento do outro que está há anos e anos na míngua, no deserto da excitação, na aridez do gozo. Bem disse Cazuza, é “solidão a dois”. E mais... é pecado! Lembrei de Lin Yutang: É a minha conclusão que no Ocidente se pensa muito no sexo e muito pouco nas mulheres”.


Eu sei que poderia escrever muito mais, porém acho que este “material” já nos dá conteúdo suficiente para começarmos uma conversa franca com nosso cônjuge, para abrimos nosso coração e falarmos do que nos incomoda, do que nos aflige, do que nos agride, do que gostamos e detestamos. Sem transparência, sem perdão, sem preocupação sincera com o outro, sem respeito mútuo, jamais seremos felizes na cama com a pessoa a quem dizemos amar. E creia-me: milhares de separações poderiam ser evitadas se este tema fosse enfrentado de forma corajosa e verdadeira.


No mais, meus manos, aguardo os seus comentários! Já coloquei um capacete na cabeça para agüentar as “pedradas” que virão (risos).... Mas aqui declaro que falo a verdade, não minto, e faço-o com boa consciência e fé, na certeza plena de que o que digo pode gerar edificação e crescimento, tanto sexual quanto emocional e espiritual.


O que espero, sinceramente, é que você esteja conseguindo levar uma vida sexual boa, plena, digna, cheia de amor, de paixão, de tesão, de gozo e alegria, pois este é o padrão das Escrituras e o propósito de Deus. Para os demais, todavia, é bom ficar "ligado", pois, não raro, o que está mesmo acontecendo é que você está dormindo com o “inimigo”.


Carlos Moreira

4 Verdades que Aprendi Sobre a Vida

Ficamos porque acreditamos...
Não consigo fazer nada se não estiver apaixonado. Mesmo que possa parecer pieguismo, confesso: só tenho êxito quando realizo coisas que me dão prazer, algo que faça meu coração acelerar.

Por isso a mesmice me apavora, a rotina me enfada, o conforto me desencanta. Tenho medo do fracasso. Sempre tive... É daí que vem essa ânsia de realizar, de construir, mesmo quando o melhor seria ficar parado. No fundo, é o desespero, lembrando de Nietzsche, de não me tornar nunca aquilo que sou, ser apenas um rosto na multidão, ou, como diz a frase da música do Pink Floyd, “apenas um tijolo a mais na parede”.

Quando eu fico, é porque acredito. Minha obstinação consegue ser obtusa. Sou capaz de perseverar até mesmo no erro. Por vezes, vou de encontro à razão, ao óbvio. Para mim, abandonar algo é uma das coisas mais difíceis da existência, seja um amor, um trabalho, um sonho ou uma amizade.

Fugimos porque nos desiludimos...
Alegoricamente falando, eu sou Hebreu. Sim, sou um ser desalojado, um andarilho da existência, homem de “tendas”... Já dei muitas voltas ao mundo sem sair do meu “cantinho”... Detesto a fixidez, o dogma, a norma, a lei. Fujo daquilo que é hermético, tenho horror à censura, não curto regras nem dominação. Bem disse a Rita Lee: “será que tudo que eu gosto é ilegal, é imoral, ou engorda?”. Desculpe... Não se escandalize...

Mas creia-me, há situações em que é preciso largar, deixar ir, deixar-se levar... Parece covardia, mas não é! Trata-se de virar a página, renovar “aromas”, saber que “é claro que o sol vai voltar amanhã, mas uma vez, eu sei...”. Só a desilusão é capaz de me remover, arrancar as estacas que finquei no chão da vida, me tirar de algo ou de alguém. Sim, quando me desiludo eu fujo, “peço a conta” e vou embora, não meço, sequer, as conseqüências.

Voltamos porque estamos perdidos...
“Caindo em si, disse: vou voltar...”. Foi à decisão do “filho pródigo”. Caiu em si... Caiu para cima e para dentro, teve a ousadia de perceber-se incompleto, a petulância de reconhecer-se como, de fato, era. Sim, nós voltamos quando nos perdemos, sobretudo, quando nos desencontramos de nós mesmos...

Mas isso só os "grandes" podem realizar, porque o caminho de volta é sempre doloroso e solitário. Quem volta sempre tenciona “chegar por cima”, com “ares de festas e luas de prata”. Mas, não raras vezes, ao retornarmos, a única coisa que trazemos na “bagagem” é apenas um punhado de desilusões...

Morremos porque nos comprometemos...
Fico pensando até onde vai a minha fé, se eu seria capaz de morrer pela causa do Evangelho? Viver por Jesus é fácil. Morrer por Ele...? Nietzsche afirmou certa vez que no ocidente cristão já houve um tempo em que as pessoas estavam dispostas a morrer por Deus, pela pátria e pela família. Contudo, para ele, esse tempo já havia terminado.

Parece mesmo verdade... Ninguém está disposto a morrer por mais nada. Somos uma geração sem referências, sem destino e sem consciência. Já dizia o Raul Seixas em sua canção: “eu não sou besta pra tirar onda de herói...”. Talvez eu seja um dos últimos “tolos”, alguém que ainda se angustia com estas questões... É, talvez eu morresse por Jesus; talvez...

“Ficamos porque acreditamos. Fugimos porque nos desiludimos. Voltamos porque estamos perdidos. Morremos porque nos comprometemos”.
Este texto não é “religioso”. Nele não tem doutrina, nem apologética, nem tão pouco sistematizações. Não fiz citações bíblicas, não me utilizei da hermenêutica, nem mesmo fiz alusão a algum dos personagens das Escrituras. Por isso, é provável que não lhe sirva para absolutamente nada. Ele é apenas um desabafo. É que eu estou fazendo uma faxina na alma, revirando “entulhos”.

Por isso, digo-lhe de todo o coração: o que afirmei é, para mim, verdade. Sei que sou responsável e culpado por aquilo que escrevo, mas não pelo que você entende...

Carlos Moreira