Um Novo Ser para um Mesmo Ano




“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos”. Fernando Pessoa

Coisa extremamente perversa é a rotina, o tédio, a mesmice, a acomodação. Não há nada mais destrutivo ao espírito humano do que alguém que virou coadjuvante da história, e não seu ator principal, passou a seguir mapas, e não a fazer mapas, satisfez-se em atingir a média, tornar-se igual, massificado, não-singular, cópia da cópia, rosto na multidão, clone de outros, holograma de carne e sangue. Esquecemos as lições do filósofo Eurípedes, quando afirmou “tudo é mudança; tudo cede o seu lugar e desaparece”.

Todos me dizem que esperam um ano de 2012 melhor. Que haja menos dificuldades, menos inquietações, que as oportunidades perdidas, reapareçam, que os amores desfeitos, ressurjam, que os negócios não concretizados, possam novamente se realizar, que o dinheiro perdido, retorne, algo como se o tempo tivesse seu próprio “espírito”, sua própria vontade, seu próprio querer.

Ora, não é o tempo que vai mudar, não é o ano que vai ser diferente, mas, se desejarem, as pessoas é que poderão ser. As dinâmicas da vida permanecerão as mesmas. Cada estação se abrirá em flores e se recolherá em sombras. Por isso, diz o sábio: “o que foi tornará a ser, o que foi feito se fará novamente; não há nada novo debaixo do sol”. Ec. 1:9. A vida certamente nos brindará com dores, perdas, medos, dramas, todos os matizes dos quais a existência se compõe neste grande crochê que emoldura a saga humana sobre o chão empoeirado da Terra.

“Quando os ventos de mudança sopram, umas pessoas levantam barreiras, outras constroem moinhos de vento”. Érico Veríssimo. Fico impressionado com nossa resistência a mudança, ao novo, àquilo que é inusitado, desafiador! É que nós nos acostumamos com o conforto, com a palidez de dias acinzentados, com a existência que se resumiu entre a boca e o prato – comer para trabalhar e trabalhar para comer.

Em 2012 quero lhe desafiar a mudar, ser diferente, ser persistente, ser gente! “Se os fatos não se encaixam na teoria, modifique os fatos”. Albert Einstein. Aprenda a discernir o tempo, veja o que acontece em nossa sociedade. Desgraçadamente, estamos nos coisificando, tornando-nos lenta e sutilmente seres de coração de pedra e sentimentos de aço. Passamos a amar as coisas e usar as pessoas! É tempo de mudar!    

Com toda certeza, 2012 não será diferente de 2011. Como bem nos chama a atenção o livro do Apocalipse, “continue o injusto a praticar injustiça; continue o imundo na imundícia; continue o justo a praticar justiça; e continue o santo a santificar-se". Por isso, escute o que sabiamente afirmou Elliot Gould: “ninguém pode ser escravo de sua identidade: quando surge uma possibilidade de mudança, é preciso mudar!”.

Feliz 2012 para você! Que este seja o ano da sua virada, pois, a virada do ano, em si mesma, não vai representar qualquer tipo de mudança... Lembre-se do que disse Kant “toda reforma interior e toda mudança para melhor dependem exclusivamente da aplicação do nosso próprio esforço”.

Foi um grande prazer escrever para vocês durante este ano. Procurei ser o mais honesto possível com cada linha publicada. Espero que alguns possam ter sido abençoados. Obrigado ao Danilo pela imensa oportunidade de trabalhar no Genizah.

Termino com o salmo 40:1 e 2: “coloquei toda minha esperança no Senhor; ele se inclinou para mim e ouviu o meu grito de socorro. Ele me tirou de um poço de destruição, de um atoleiro de lama; pôs os meus pés sobre uma rocha e firmou-me num local seguro”. Beijo no coração!

Carlos Moreira

Feliz Ano Vellho




Mas um ano se vai… e este, em especial, foi por demais difícil. Vi-me cercado por angústias do inferno, senti-me emaranhado por laços de morte. Muitas foram às noites sem sono, com medo, ansioso, andando pelo vale das sombras em meio ao silêncio e a solidão.

Por vezes tive a impressão que minha alma escapou de mim mesmo, uma sensação de que meu ser esvaiu-se, como se toda essência se derramasse como água que transborda da jarra enquanto vai sendo carregada pelo chão da vida.

Tentava sorrir e não conseguia... Meus lábios estavam serrados, meus olhos transbordavam tristeza, meu coração tornou-se um cômodo apertado. Queria trazer a memória algo que pudesse me dar esperança, mas, definitivamente, não sou Jeremias, meu alimento é lamento e dor. Bem disse Nietzsche ao afirmar: "é necessário levar em si mesmo um caos, para pôr no mundo uma estrela dançante.". E haja caos aqui dentro...

Quanta inquietação! É o “ser ou não ser”... E eu não sei. Se soubesse, seria, mas penso não saber, por isso não sou, mesmo querendo ser, ainda que não aquilo que deveria, vou sendo em partes, por pedaços, fragmentos de mim mesmo, junto migalhas do eu que há em mim na busca incansável de tornar-me aquilo que sou.

E assim, em meio a este turbilhão, lembrei-me do salmista: “Senhor meu Deus! Quantas maravilhas tens feito! Não se pode relatar os planos que preparaste para nós! Eu queria proclamá-los e anunciá-los, mas são por demais numerosos!”. Sl. 40:5

Meus olhos se voltaram para o caminho – as horas dos dias, os dias das semanas, as semanas dos meses, os meses deste ano... percebi que mesmo em meio a tantas dificuldades Deus sempre esteve ali, no mesmo lugar, eu é que me perdi. Como pude, então, não agradecer por cada lágrima derramada, por cada dor degustada, por cada tristeza acalentada? Por isso agora me arrependo... Trago-te Shakespeare: “a gratidão é o único tesouro dos humildes”.

O problema é que na contabilidade da vida as contas nunca fecham, o saldo sempre está negativo. Por mais que Deus tenha feito em nós, por nós e através de nós, continuamos a valorizar apenas àquilo que deu errado, que produziu tristeza, que contrariou os planos, que feriu as regras, que alterou o curso, que roubou o sonho, que tragou o brilho, que matou a vida. Em meio à dor, o bem recebido é sempre esquecido, pois “a gratidão é a memória do coração” (Antístenes), e se ele tiver se tornado de pedra, viverá eternamente de esquecimento.

Bem disse Lenine em sua poesia ao perceber que nos tornamos máquinas movidas a sangue: “deu ferrugem nos meus nervos de aço”. É que nós nos esquecemos de quase tudo, inclusive que somos de osso, não de aço! Certo estava Sêneca quando afirmou: “quem acolhe um benefício com gratidão, paga a primeira prestação da sua dívida”.  

Perdoa-me meu Pai por tanta ingratidão! Aquieta a minha alma com Tua Palavra, pois, ‎"quanto a mim, sou pobre e necessitado, mas o Senhor preocupa-se comigo. Tu és o meu socorro e o meu libertador; meu Deus, não te demores!". Sl. 40:17. 

E assim vou vivendo, como de um mal incurável, trago essa ânsia de transcender. Um dia, todavia, tornar-me-ei aquilo para o qual fui concebido, serei totalmente eu, sem fragmentações, sem desencontros ou contradições, serei por inteiro, recriado, refeito, ressuscitado! Aí, então, conhecerei como sou conhecido, saciada será a minha sede, pois beberei no cálice da Graça a Água da Vida.

Por tudo isto e mais um pouco: Feliz Ano Velho!

Carlos Moreira

Quanto Pior, Melhor!

Nos últimos 15 anos, trabalhando como executivo, aprendi muita coisa. Na área da Tecnologia a competição sempre foi bastante acirrada, pois o mercado é muito dinâmico, as margens são apertadas, há muitos players, os produtos são commodities... Sobreviver neste ambiente é tarefa hercúlea!

A boa notícia, entretanto, é que percebo claramente nos últimos tempos um movimento em busca de padrões éticos que não “canibalizem” a atuação das empresas na prospecção de clientes. Há, inclusive, Companhias que não só observam estes padrões mais os tornam determinantes na hora de escolher com quem vão trabalhar.

Quem dera fosse assim também entre aqueles que trabalham no Reino de Deus... Confesso, todavia, com tristeza, que o ambiente eclesiástico – desde os históricos, passando pelos reformados, chegando aos pentecostais, adentrando entre os pós-pentecostais e até em meio aos Católicos Romanos – tem se tornado um lugar insalubre em suas propostas, práticas e, sobretudo, no convívio entre seus líderes.

O que se vê na mídia em geral é gente atacando e sendo atacada, literalmente se “devorando”, auto-proclamando-se mais “espiritual”, mais bem preparada, com maior “pedigree”, portadora de “poderes do alto”, pois em seus “cultos” existem mais “conversões”, “milagres”, “libertações”, “curas” e até “exorcismos”! É a “tenda dos milagres” personalizada, pregando um “evangelho”, não raro, distorcido, o qual se tornou produto “enlatado” para consumo de gente desesperada. Estes correm o risco de se tornarem traficantes do Sagrado, intermediando “benefícios” do céu na Terra através do “cartório-igreja” em nome do qual, supostamente, estão autorizados a prestar tal “serviço”.

Assisto periodicamente pastores se mutilando, falando mal do ministério alheio, acusando o outro de ser embusteiro, falsário, mentiroso e até bandido! Ora, é óbvio que aqui não estou tratando dos que fazem a apologética da fé, nem muito menos do caráter profético relativo à denúncia dos extravios, mas das “guerrilhas” que acontecem entre os players do “mercado da salvação”, cada um querendo encher mais a sua “botija”, defender sua fatia do “market share” dos perdidos, e isto sem qualquer critério ético ou moral!

Os “pastores” estão neurotizados, buscam viabilizar seus próprios ministérios, tentam catapultá-lo na TV, nas revistas e outras mídias, como se isso fosse possível! Igrejas selecionam ministros por sua formação, currículo, por falarem mais de um idioma, e não por sua piedade, devoção, vida de oração e santidade. No fundo são crianças atrás dos 3 P’s: palco, púlpitos e platéia. Ora, estes ainda não aprenderam como convém saber, e pensam que podem ter alguma autoridade sem que dos céus lhes seja dada. A estes digo: quebrem suas algemas de microfones e destruam seus palanques de pregação, tomem sua cruz e sigam-no!

Quero dizer duas coisas: a primeira é o texto de Paulo aos Filipenses 1:18: “Mas que importa? Contanto que Cristo seja anunciado de toda a maneira, ou com fingimento ou em verdade, nisto me regozijo, e me regozijarei ainda”.

Paulo não se preocupava com QUEM pregava, mas apenas com O QUE se pregava. Deus tratará do mensageiro, e esse problema não é nem meu nem seu! Devemos ficar atentos quanto a eventuais desvios do “eixo” das Escrituras, da chave hermenêutica que é Jesus, pois ainda que um anjo dos céus nos pregue outro Evangelho que não seja o de Cristo, este será maldito e mentiroso! O resto, é com Ele!

A segunda coisa é o texto de Lucas 9:49-50: “E, respondendo João, disse: Mestre, vimos um que em teu nome expulsava os demônios, e lho proibimos, porque não te segue conosco.E Jesus lhes disse: Não o proibais, porque quem não é contra nós é por nós”.

Os discípulos estavam preocupados que a “franquia do Divino” estivesse saindo do controle deles, pois pensavam em cartelizar o Sagrado. Eles imaginavam abrir a “Jesus SA”, uma companhia para realizar a divulgação do Evangelho. Mal sabiam, entretanto, que transeuntes anônimos levariam a Boa Semente de Jerusalém para os confins da Terra, disseminando a mensagem de que “Deus estava em Cristo reconciliando com Ele o mundo e não imputando aos homens os seus pecados”.

Sei que muitos dos que aí estão são “pastores-lobos” e que torcem pela desgraça dos outros, buscam “despojos” daqueles que, por algum motivo existencial, enfrentando perdas e danos, naufragaram em seus ministérios. A tônica deles é: “Quanto Pior, Melhor!”. Vejo gente conspirando, amaldiçoando, mentindo, destratando, irmão contra irmão, um espetáculo que leva o mundo a não querer jamais fazer parte de nossa “confraria”, pois, diante de tanta aberração, só há algo que possa ser afirmado: “vejam como eles se odeiam!”.

A mim, todavia, que importa? É certo que compareceremos diante do Tribunal de Cristo e, diante dEle, quem irá dissimular ou mentir? Naquele momento teremos de dar contas de tudo que tivermos feito por meio do corpo, pois Ele sonda os segredos de nossas almas, os propósitos de nossas motivações, os conteúdos de nossos corações, nossos esforços e labor. Por isso, fique tranqüilo, e deixe Deus ser Deus!


Carlos Moreira

O Que é Pior: o “Profeta” que Mente ou o Pierrô que Fala a Verdade?


São 6:00h. da manhã. Em alguns instantes vou postar este texto no blog... Estou escrevendo tão cedo porque acabei de ser acordado. Vida de pastor... Telefone sempre ligado para atender pessoas que possam estar com problemas...

Eram 5:30h. quando o Leandro me ligou. Obviamente estou usando um nome fictício. O Leandro converteu-se há pouco tempo. Vem de uma história de vida complicada. Era um cara rico que, de repente, se viu sem nada. Perdeu tudo: casa, dinheiro, amigos, dignidade, esposa e filhos. A culpa maior é dele e ele sabe disso. Não reclama, não usa de auto-indulgência, não faz racionalizações; tem feito como Davi: “pequei contra Deus”.

Quando o telefone tocou e eu vi seu nome no aparelho já sabia do que se tratava... Atendi com voz rouca, pois estou doente desde quinta. Do outro lado havia alguém chorando. A voz embargada tornava-se ainda menos inteligível pelo estado de embriaguês. Sim, meu amigo estava bêbado, saindo de uma festa, desencontrado de sua alma, sozinho no meio da multidão.

“Pastor!”, disse ele, “Eu acabei de pregar para os seguranças da festa. Sei que estou bêbado, mas falei do amor de Deus e da misericórdia de Jesus. Agora estamos todos aqui chorando: eu, porque não deveria ter vindo a esse lugar, esse ambiente não pode me acrescentar mais absolutamente nada, simplesmente não faz parte de mim. Eles porque, mesmo sóbrios, estão esvaziados de significados, estão vivendo sem um propósito, sem conteúdos e valores que possam ressignficar suas consciências e trazer-lhes vida ao ser”.

Não havia muito que eu pudesse fazer... Ainda estou com febre... Dei-lhe algumas orientações e voltei para a cama. Não consegui mais dormir... Levantei e liguei a TV. Em certo canal, um “apóstolo” estava pregando a “palavra” de “deus”. Loucura! Nada do que dizia era Evangelho, tudo estava torcido para atingir seus propósitos: enganar os incautos, iludir os desesperados, alienar os desiludidos, arrebanhar os perdidos, espoliar os que nada possuem, roubar a esperança dos desgraçados, “quebrar o caniço esmagado e apagar o pavio que ainda fumega”.

Mudei de canal. Essa gente me dá náuseas! Caiu num filme do Harry Potter. Era bem melhor! Prefiro o feiticeiro de “verdade” ao de mentira... Fiquei vendo as imagens na tela, mas minha mente não estava ali... No meu íntimo fazia conjecturas: “o que é menos danoso ao ser: um falsário sóbrio ou um bêbado verdadeiro? É melhor ouvir a mentira do “profeta”, que fala sem ter ingerido álcool, ou a verdade do pierrô que passou a noite “enchendo a cara”?”. As perguntas se amontoavam em mim... Lembrei de Nietzsche: “o fantasioso nega a verdade para si mesmo; o mentiroso apenas para os outros".

Triste o povo que não tem profetas para admoestá-lo! Em meio à aridez humana de nossos dias, “quando tudo pede um pouco mais de calma, até quando o corpo pede um pouco mais de alma”, prefiro ouvir as “loucuras” do bêbado às “verdades” do “santo”. Não obstante, ambos estão errados: o primeiro em seu proceder; o segundo em suas intenções.

Do fundo do coração, todavia, acho mais fácil a pregação do “pierrô” surtir efeito, pois trás em si a Palavra carregada de paixão, sem distorções ou manipulações, ainda que o “pregador” não esteja em um de seus melhores dias, do que o sofisma eloqüente do “profeta” mal intencionado, que fez “alquimia” das Escrituras com vistas a iludir aqueles que nada sabem sobre a Verdade e, por isso, acabam, como “embriagados”, se satisfazendo com o veneno que lhes é despejado goela abaixo...


Carlos Moreira


A Inconveniência de Encarnar o Evangelho numa Sociedade Baseada na Conveniência

"Estamos acostumados ao sacrifício do ideal sobre o altar da conveniência e do ganho imediato". Stuart Holden.

Introdução

Você já imaginou como seria a vida humana sem algumas invenções surgidas, sobretudo, a partir da modernidade? Você conseguiria, por exemplo, imaginar viver sem energia elétrica? Sem água encanada? Sem refrigerador? O que seria de nós se vivêssemos sem ar-condicionado, carro ou elevador?

Tenho absoluta certeza de que, para muitos, a vida seria insustentável se não houvesse telefone celular, internet, shopping center, televisão ou CD player? Na verdade, a lista de indispensáveis que são supérfluos é interminável. E por que digo isto? Por que toda a civilização humana que viveu antes de nós não tinha nenhumas destas coisas.

O sociólogo francês Alain Touraine, afirma que nós "vivemos numa sociedade de consumo, onde as mercadorias passaram a mediar nossas relações formando uma sociedade que vive a "modernidade triunfante". A emergência dessa sociedade de consumo é fruto dos avanços e das mudanças que o mundo sofreu, principalmente, no século XX. Neste contexto, afirma, é possível se experimentar a satisfação imediata de quaisquer que sejam as nossas necessidades, desde que se pague por isso.

Um dos teóricos que influenciou Touraine foi Karl Marx que, por sua vez, já afirmava em suas análises sobre o que designou chamar de materialismo dialético, ainda no século XIX, que "a produção é, pois, imediatamente consumo; o consumo é, imediatamente, produção...". Pois bem, o resultado de todo este avanço tecnológico e científico provocou o surgimento do fenômeno que está sendo denominado de: “sociedade da conveniência”.

A Vida Baseada na Conveniência

Viver nos grandes centros urbanos tornou-se tarefa extremamente difícil. Convivemos diariamente com engarrafamentos, violência, poluição, serviços governamentais de péssima qualidade, dentre outras questões insuportáveis. Em busca do lucro, empresas almejam fazer mais com menos. As pessoas estão assoberbadas, com agendas intermináveis, reuniões, metas a serem batidas, busca pela qualificação, concorrência. São tantas demandas que cada vez mais aumentam os casos dos que, sem estrutura emocional e psíquica para suportar tais pressões, acabam adoecendo.

Fato é que nos tornamos, além da sociedade do consumo, a sociedade da depressão, da ansiedade, do pânico, das doenças psicossomáticas. Ganhamos dinheiro para gastá-lo no consultório do analista; vivemos anestesiados por diasepínicos e ansiolíticos. Sobre isto, bem citou George Calim, escritor americano, "temos acrescentado anos a nossa vida e não vida aos nossos anos".

Supostamente, para minimizar – ou seria melhor dizer anestesiar – todos estes impactos, surgiu o conceito da conveniência. A conveniência existe para você se sentir único, exclusivo, singular. Ela exalta o conforto, a facilidade, a praticidade. Seu alvo é fazer você economizar tempo, evitar transtornos, fugir de desgastes desnecessários.

Viver na sociedade da conveniência é possuir tudo a mão: a comida solicitada por telefone com entrega imediata, a loja aberta 24 horas com produtos de utilidade doméstica, serviços prestados com hora marcada, manobrista no restaurante, pet shop para o seu cão, banco pela internet, TV por assinatura, quiosques dos bancos em lugares de fácil acesso, até flores você pede por telefone e paga com cartão de crédito!


Conseqüências e Desdobramentos Inevitáveis

O problema de se viver numa cultura que minimiza o esforço, que dilui a perseverança, que nos dá a falsa sensação de que o mundo gira em torno de nós, é o surgimento de uma geração de pessoas acomodadas, letárgicas, preguiçosas, descompromissadas, que vivem na zona de conforto, que não se mobilizam, que não protestam, não se sentem responsáveis por nada nem ninguém que não esteja diretamente ligado a si.

Pouco importa o destino do planeta, ou a dor dos necessitados. Pouco importa a miséria, a opressão, a injustiça, pois, a única coisa que importa, é que meu conforto e as minhas conveniências sejam supridos.

Como pastor, ouvindo pessoas todos os dias, observo que este estilo de vida, que vicia e produz dependência, moveu-se das questões econômicas e acabou por instalar-se nas dinâmicas da espiritualidade humana. Vivemos hoje o que posso denominar de uma “espiritualidade baseada na conveniência”.

A igreja de nossos dias tem dificuldade de entender a proposta de Jesus. “Vinho novo em odres novos”, ou seja, uma consciência ressignificada em busca de construir uma espiritualidade consciente, conseqüente e sustentável!

As igrejas estão cheias de pessoas vazias! A religião, bem afirmou Marx, tornou-se alienação. Nietzsche estava certo ao afirmar, ainda no século XIX, que nós matamos Deus! Sim, sepultamos o sagrado em nossas liturgias ocas, em nossos ritos de ocasião, tentamos aprisionar Deus com nossos dogmas, transformamos a fé em um discurso desassociado da prática, cauterizamos nossa consciência e, como conseqüência, nosso coração petrificou-se.

Os Fenômenos Surgidos a Partir da Espiritualidade Baseada na Conveniência

Na minha percepção, existem pelo menos três fenômenos produzidos a partir deste modelo de espiritualidade baseada na conveniência.

O primeiro é a possibilidade de construção de uma “fé self-service”. A quantidade de informação disponível em nossos dias é algo sem precedentes. As pessoas, em sua ânsia e desespero de ter suas necessidades atendidas, buscam satisfazer seus desejos em qualquer lugar, ouvindo qualquer pessoa, desde que isto vá de encontro as suas necessidades. Elas não se fixam em uma comunidade, sob orientação de um pastor, mas vivem pulando de “galho em galho” atrás de algo que seja “inusitado”, “diferente”.
É assim que surge a “fé self-service”. Ela nada mais é do que a “costura” de um conjunto de doutrinas desconexas, sincretizadas a partir da teologia pregada por várias denominações. O “fiel” vai juntando as partes do “quebra-cabeça” a partir daquilo que entende, e não daquilo que, na verdade, as Escrituras afirmam. Ele vai hoje aqui, amanhã ali, depois acolá; é um “culto de poder”, um “profeta famoso”, um “missionário de sucesso”, é a leitura de um livro “poderoso”, o programa de TV “ungido” e, com tanta informação desencontrada em sua mente, acaba criando uma “fé Frankenstein”, um monstro que tomou vida a partir de conteúdos “enxertados, cortados e costurados” em sua consciência.

A “fé self-service”, todavia, possui uma grande “vantagem”: o indivíduo pode fazer aquilo que deseja, pois sua vida passa a ser regida por uma “sopa” de doutrinas exercitadas de tal forma a lhe satisfazer os desejos. Com a consciência anestesiada, e sem qualquer discernimento espiritual, ele vai levando, como diria o Chico, só não sei onde vai parar...!

O segundo fenômeno que percebo é o surgimento da “Igreja Commoditizada”. Do que se trata? Bem, segundo o Wikipédia, “uma commmodity é algo relacionado aos produtos de base em estado bruto (matérias-primas)... de qualidade quase uniforme, produzidos em grandes quantidades e por diferentes produtores”.

E como isso se aplica as igrejas? É simples! As igrejas, apesar das inúmeras denominações (produtores), tornaram-se lugares muito parecidos, uniformizados, com cultos e programas muito semelhantes (matérias-primas). Desta forma, o “crente” acaba não tendo muitas opções, fica obrigado a “beber” o “sopão” que está sendo oferecido. Mas lembre-se: estas pessoas estão acostumadas à conveniência, a serem tratadas de forma singular, exclusiva, diferenciada. E é aí que o “bicho pega”!...

Na intenção de atrair o “crente-cliente”, as igrejas buscam diferenciar-se uma das outras através de estratégias as mais bizarras possíveis. São cultos de catarse, exorcismo com direito a entrevista com o capeta, “curas e milagres” ao vivo, louvor com “cantores gospel”, “pregadores famosos”, e tudo o mais que possa diferenciar uma “loja religiosa” da outra. Sim, porque nestes lugares, o que se tem é um “balcão de prestação de serviço”, não uma comunidade de fé! Quanto mais “atrativa” for à programação, tanto maior será a possibilidade de atrair os “fiéis”, afinal, não esqueçamos, eles estão atrás de conveniência!

Finalmente, o terceiro fenômeno que observo é aquele que produz uma relação com Deus no modelo “on-demand”. O conceito de on-demand surgiu a partir do mundo da tecnologia para permitir a contratação de produtos e serviços conforme a demanda das pessoas, ou seja, você adquire algo na medida certa, que se adéque a sua necessidade. Um exemplo disto são os pacotes oferecidos pelas operadoras de telefonia celular, com opções das mais diversas para os clientes.

Uma relação com Deus baseada no modelo on-demand é aquela na qual a divindade está a serviço da criatura. Deus passa a ser uma espécie de gênio da lâmpada e é acionado sempre que surge uma crise ou quando se quer resolver algo. Deus torna-se um office- boy, ele existe para dar conta de nossas demandas existenciais, por em ordem nossas desordens, aplacar nossas culpas, aliviar nossas dores, perdoar nossos pecados, abrir portas fechadas, tudo conforme a demanda, tudo conforme aquilo que precisamos.

Conclusão

Num tempo onde a espiritualidade humana se desenvolve baseada em uma fé self-service, as igrejas, commoditizadas, buscam promover “atrações” e “efeitos especiais” par atrair os “fiéis”, e a relação pessoal com Deus está baseada num modelo on-demand, o que podemos esperar?

Conversando com o ministro de música de nossa comunidade, ele me falou do Cristão 3"S". Você conhece este tipo? Os 3"S" significam: salvo, sentado e satisfeito! Triste, mas real. Na sociedade da conveniência, quem está salvo não precisa fazer mais nada, por isso pode ficar sentado, apenas assistindo, e quem está sentado, numa igreja que transformou o culto num espetáculo do Cirque Du Soleil, tem é que estar mais do que satisfeito!

Por tudo isto, constatamos o quão inconveniente é encarnar o Evangelho numa sociedade que está baseada na conveniência. A questão central é que a mensagem de Jesus exige, justamente, a renúncia, a abnegação, o compromisso, o negar-se a si mesmo, o tomar a sua cruz. Isto, obviamente, requer o abrir a consciência para os conteúdos da mensagem do Nazareno, permitir que o caráter de Cristo seja esculpido em nosso caráter. Em resumo, dá trabalho, e leva tempo, ou seja, não é conveniente...

Diante de tudo isto, só tenho uma coisa a dizer: Maranata! Vem Senhor Jesus!

Carlos Moreira


Pastor: isto é de Deus ou do diabo?


Talvez daqui há alguns anos eu escreva um livro só com as “pérolas” que ouço semanalmente no gabinete pastoral. Já pensei até no título: “Confissões & Confusões”.

A bem da verdade, uma das atividades mais desgastantes da vida de um ministro do Evangelho é o aconselhamento. Digo isto porque é impossível ouvir os dramas e dores das pessoas sem, de alguma forma, não se envolver com eles.

Mas a “escuta terapêutica” vem desaparecendo, gradativamente, das funções dos ministros ordenados e isto, para mim, tem um único motivo: escutar pessoas requer um investimento grande de tempo e, “desgraçadamente”, não gera dinheiro. Por isso, muitos pastores têm optado em fazer um curso superior de psicologia, pois aí podem cobrar pelo atendimento profissional.

Pois bem, esta semana eu me vi diante de uma situação muito freqüente quando ouço pessoas: a suposta “obrigação” de ter de dizer ao indivíduo se ele deve ou não fazer algo. Concretamente, a questão me foi posta da seguinte forma: “pastor, depois de ter ouvido tudo o que eu disse, me responda sinceramente: isto é de Deus ou do diabo?”. “Bem”, respondi, “nem de um nem do outro, muito pelo contrário!”.

E prossegui... “Meu amigo, eu não sou feiticeiro, nem adivinho, não possuo bola de cristal, não jogo búzios, nem leio cartas. Portanto, não estou aqui para lhe dizer como será o amanhã nem muito menos para lhe dar uma “profetada”. Posso sim lhe ajudar a refletir sobre alguns “cenários” possíveis, e isso a partir de suas escolhas. Mas saiba: a decisão final será sempre sua e somente sua”.

E continuei... “Outra coisa que preciso lhe esclarecer é que nem tudo na vida se resume a ser de Deus ou do diabo. Na verdade, a maioria das coisas são “do homem”, ou seja, ganham materialidade a partir da projeção das “sombras” que existem em nós, pois, segundo Tiago: “cobiçais, e nada tendes; matais, e sois invejosos, e nada podeis alcançar... pedis, e não recebeis, porque pedis mal, para gastardes em vossos deleites””.

De forma objetiva, o que quero aqui esclarecer, é que a tradição cristã, infelizmente, está impregnada deste tipo de pensamento que nada mais é do que o dualismo grego. Foi a partir da influência desta filosofia que a existência acabou sendo reduzida a algo binário: zero ou um. Em outras palavras, tudo passou a ser ou de Deus ou do diabo.

O Dualismo grego é uma espécie de dialética hegeliana sem a síntese, ou seja, ele só tem tese e antítese. Separa o físico do metafísico, o sensível do espiritual, o bem do mal, a unidade da pluralidade.

Muitas destas idéias estão centradas em Platão, pois, para o filósofo, o mundo estaria dividido em duas esferas: a superior e a inferior. O nível mais elevado consistia das idéias eternas. O nível mais baixo era formado pela “matéria”. Esta, por sua vez, era temporal, física e imperfeita.

É por este motivo, por exemplo, que Platão localiza o trabalho no reino inferior. Para ele, existia um reino espiritual separado e distinto do reino físico. Por isso, quanto mais espiritual a pessoa fosse, menos ligado à matéria estaria. No dualismo grego, o ambiente profissional era “carnal”, pois tratava das “coisas terrenas”, tais como o dinheiro.

Agora uma pergunta: você já viu este tipo de “pensamento” presente na igreja? Mais é claro que sim! O que você talvez não saiba é sua origem. Então vamos “mergulhar” na história...

A partir do século IV, a cosmovisão cristã começou a sofrer forte influencia do neoplatonismo, desenvolvido por Plotino. Tratava-se de uma doutrina que preconizava, dentre outras coisas, o abandono do mundo material para que o espírito pudesse unir-se a uma “entidade superior”.

Pois bem, a “porta de entrada” do neoplatonismo no “pensamento cristão” se deu através de um de seus mais ilustres representantes: Santo Agostinho. O bispo de Hipona foi, talvez, o principal responsável pela adaptação das idéias de Platão de tal forma a que elas pudessem servir como argumentação filosófica para a apologética da fé cristã.

Um dos desdobramentos desta tradição, durante a idade média, impunha aos clérigos a necessidade de atestar sua espiritualidade através de votos de pobreza, de castidade e de obediência. Era a negação dos “elementos” do “reino inferior” com vistas a se alcançar uma “espiritualidade elevada”, ou seja, era a ataraxia estóica grega simbiotizada com a fé judaico-cristã.

Agora quero lhe fazer uma proposta: olhe para a vida com estas “novas lentes” e, talvez, você comece a perceber que o dualismo não tem nada a ver com o Evangelho. Essa separação de mundo espiritual do mundo material é pagã, e não cristã. É dela que surgem conceitos tais como: "coisas de Deus" e "coisas do diabo"; arte sacra e arte profana, música gospel e música do mundo, coisas espirituais – orar, jejuar, pregar – e coisas "carnais" – trabalhar, se divertir, se exercitar.

Fico feliz em saber que a proposta de Jesus é de resssignificação de minha consciência de tal forma a que eu encarne os valores e verdades do Reino. Deus é soberano sobre tudo, tanto o que é natural quanto o que é espiritual, pois, para Ele, as duas dimensões são uma coisa só. Por isso, o que sei é que devo ser santo, como santo é o Senhor, tanto na faculdade quanto na igreja, tanto no trabalho quanto na reunião de oração, tanto no campo de futebol quanto na escola dominical!

E saiba: nem tudo é “coisa do diabo”, como também nem tudo é “coisa de Deus”. Há, pois, “coisas que são do homem”, ou seja, escolhas e decisões que são tomadas no chão da vida e que trazem, por si mesmas, as suas conseqüências, seja para o bem, seja para o mal.

Na parábola do “Bom Samaritano” o caminho era um só, e todos iam por ele: tanto os salteadores quando o transeunte agredido, o levita, o sacerdote e o samaritano. A única diferença era a forma como cada um deles caminhava. Por isso, nunca se esqueça: o Caminho está dentro do caminho...

Carlos Moreira

Vidas Secas




Ouvir pessoas tem sido um de meus “ofícios”. Abrindo o coração, elas dão a volta ao mundo sem sair do lugar, falam de seus dramas. De repente, embarco em “cenários”, torno-me parte de histórias, Sinto “dores de parto”; sofro...

Os dias são difíceis, nós já sabemos. Há um “espírito” pairando sobre nós – zeitgeist. Somos todos e não somos ninguém, nos commoditizamos, estamos em processo de desconstrução, pois tudo ao nosso redor é impermanente. Desumanizados, sem essência, sem substância, existimos sem a porção que nos torna gente.

Lembro de Graciliano Ramos, no seu livro “Vidas Secas”. É a história da mudança e da fuga. Produzido na década de 1930, “Vidas Secas” poderia ser a crônica de um jornal de hoje. Pessoas em fuga! De si mesmas, de lugares, de histórias, de “miséria” em “miséria”. Não se trata mais, como no romance, da busca pela subsistência, mas das premissas mínimas para a existência.

Ezequiel nos expõe esta mesma realidade no capítulo 37 quando fala do “Vale de Ossos Secos”. Ali ele é levado a um local ermo aonde Deus lhe faz uma surpreendente revelação. O cenário ganha contornos de uma “sala de cinema” e o profeta, transformado em “mídia”, torna-se o “projetor” do inconsciente coletivo – Jung – da nação de Israel. Diante dele está o holograma imaterial do que estava acontecendo no mundo da matéria, das coisas visíveis.

A “visão” de Ezequiel é fenomenológica, conforme Kant, pois está acontecendo no tempo e no espaço, mas também é consciência geral, comum a todos os sujeitos cognitivos, conforme Husserl. Neste cenário “ficcional”, ele vê diante de si um cemitério, um lugar onde a vida se extinguiu por completo. É o “mosaico” de “Vidas Secas” sob a pintura expressionista de Portinari.

De fato, aqueles eram dias difíceis... Israel, exilado na Babilônia, estava diante de uma cultura muito diferente da sua. Havia um forte sentimento de perda, pois Jeová os havia abandonado, e isso criara uma amargura incrustada na alma, um sentimento de revolta, de desespero e solidão. Foi à soma de toda esta energia psíquica que “produziu” a “visão” que Ezequiel, pelo Espírito, contemplou.

Ler o texto de forma consecutiva nos dá a impressão de que a “visão” do profeta não é “visão”, mas realidade, aquilo que está acontecendo naquele momento. Mas, na verdade, não é assim... Há algo no texto, ainda que sutil, que muda esse eixo de interpretação. Está no verso 11. Nele o autor faz a guinada na narrativa e, deixando o mundo espiritual “para trás”, retorna ao concreto, ao real. E é só a partir daí que Deus começa a esclarecer ao profeta o que ele havia visto: “11- Então ele me disse: “Filho do homem, estes ossos são toda a nação de Israel. Eles dizem: ‘Nossos ossos se secaram e nossa esperança desvaneceu-se; fomos exterminados”.

Naquele momento, a “visão” já havia cumprido o seu propósito: construir no coração de Ezequiel as percepções necessárias para o desenvolvimento de sua missão. Dali por diante, não era mais preciso “olhar” para o “Vale de Ossos Secos”, pois ele representava apenas “EFEITOS”. O grande desafio era voltar-se para as pessoas, para o mundo cotidiano, pois ali estava as “CAUSAS”, o nascedouro dos fenômenos capaz de transformar Vidas Singulares em “Vidas Secas”.

E tudo começa com o que está dito no verso 11: “nossos ossos secaram”. Não é uma frase solta, um lamento despretensioso. É o gemido que sai do íntimo do ser, pois a sequidão da alma havia chegado até aos ossos. Aqui está uma das causas para a desconstrução de vidas: “ALIMENTAR” O MUNDO IMATERIAL COM AS PRODUÇÕES DO MUNDO REAL. Principados e potestades “comem” tudo aquilo que nós produzimos! Por isso nossa luta não é contra pessoas, mas contra seres do mundo espiritual. “A serpente se alimenta do pó da Terra”; demônios se banqueteiam com sentimentos como iras, ódio, inveja, amargura, rejeição, e constrói em torno de nós uma “engrenagem” que se retroalimenta de tudo isto.

A cura só se processa quando a alma é sarada pelo Espírito de Deus, através da pacificação interior, do perdão que é dispensado pela graça Divina. Isto fica perceptível no texto, pois a “reconstrução” do cenário de morte começa de dentro para fora; os ossos ganham nervos, tendões, carne e pele. A estrutura se ergue, fica de pé, mas ainda não tem fôlego, são autômatos, zumbis! Ainda se está diante de um cemitério. Só quando o Espírito é “soprado” sobre aquelas “carcaças” é que a vida recomeça e elas se tornam humanos.

O segundo ponto que percebo no texto, e que gera demolição em vidas, é a perda da esperança. Veja novamente o verso 11: “nossa esperança desvaneceu-se”. Trata-se do aprofundamento do estágio anterior; é A PAVIMENTAÇÃO DO CAMINHO PARA A DESARTICULAÇÃO DAS ESTRUTURAS DO PSIQUISMO. Quando a esperança se vai, a pessoa não acredita mais em nada. É o “esquematismo da miséria”. É Neste estágio que se instalam em nós doenças como a depressão, os distúrbios psicossomáticos e as síndromes – do pânico, por exemplo. A vida perde o apetite, o significado, a razão de ser.

Thomas Quincey diz que “as pegadas feitas na alma são indestrutíveis”. Ali estava um povo ferido, sem esperanças. Suas almas eram como masmorras sombrias, “esgotos” de desespero e agonia. Trancadas em si mesmas elas se revolviam em meio à dor e assim drenavam toda energia vital, toda alegria, tudo o que produz paz e bem. Tire os sonhos de um ser humano e você verá que ele não terá mais horizontes. Os Israelitas já não acreditavam que era possível sair daquela girândola da morte.

Aí entra Deus no descaminho humano! O verso 12 diz: “abrirei os seus túmulos e fá-los-ei sair”. Sim, há pessoas cujo interior tornou-se cova, lugar de morte. Ali está todo acúmulo de negatividade que a vida deixou. É como o sargaço trazido pela maré que fica na praia e apodrece. Mas Deu derrama luz nas nossas trevas! É a luz da confissão e do arrependimento que faz com que a poeira dos porões do ser saia pelas janelas da alma! É o resgate da vida! O choro dura uma noite, mas a alegria vem pela manhã!

Finalmente, ainda percebo um último “fenômeno” que destrói pessoas. Observe a fala final do verso 11: “fomos exterminados”. É uma afirmação conclusiva, definitiva, última. Viver agora é mero cumprimento de obrigação, é rotina, enfado e canseira. Este “sentir” representa o que considero A CONSTRUÇÃO DA LOGÍSTICA PARA ACOLHER AS SOMBRAS DA MORTE.

Ah, como tenho encontrado gente assim, com a “Vida Seca”, se arrastando existencialmente, amargando existir, na estação outonal, onde os pranteadores andam ao derredor, e as aves esperam a carniça para devorá-la. Em circunstâncias como esta, só um novo projeto pode trazer resultados. Aqui não adianta mudar hábitos, condicionamentos, ou até mesmo mudar de lugar, fugir, como fazia o Fabiano, do livro de Graciliano Ramos. Aqui é preciso uma nova perspectiva.

Por isso Deus – verso 12 – precisava semear entre eles um novo sonho: “trarei vocês de volta a terra de Israel”. Agora sim! Ele voltara a agir no meio do seu povo! O céu deixara de ser de bronze, impermeável, pois o tempo da visitação chegara novamente, o dia oportuno, o dia da salvação! A Babilônia ficaria para trás, com suas “simbologias” que representavam um tempo onde a “vida secou”. Mas o Espírito Dinâmico entendera que à hora do resgate havia chegado. Agora era só aguardar o livramento!

“Vidas Secas”... Como torná-las férteis novamente? Talvez analisar estes processos descritos anteriormente ajude a compreender algumas dinâmicas fenomenológicas e arquetípicas que se interpõe no caminhar dos humanos sobre a Terra.

De todo modo, em João, capítulo 7, Jesus nos apresenta uma perspectiva ainda melhor: “se alguém tem sede venha a mim e beba”. É uma metáfora em alusão a única coisa que pode gerar saciedade existencial: ir a Ele e, nEle, ser! Estais sedento? Venha e beba! Sua vida se dessignificou? Venha e beba! Tem existido com sombras no coração, com hálito de morte? Venha e beba! Perdeu a esperança? Venha e beba! O convite permite que se plante, no “jardim” do coração, sementes de misericórdia, as quais serão regadas diariamente com lágrimas de amor. Creia-me: você verá que, em pouco tempo, elas produzirão verdadeiros milagres; paz, saúde, vida e bem.

Carlor Moreira

O Luto de Eli

A última moda agora é falar em sustentabilidade. Trata-se de um “conceito sistêmico relacionado com a continuidade dos aspectos econômicos, sociais, culturais e ambientais da sociedade humana”.

A sustentabilidade, fundamentalmente, visa preservar a biodiversidade e os ecossistemas. A tecnologia deve ser sustentável, o desenvolvimento econômico precisar ser sustentável, as empresas buscam ser sustentáveis, e por aí vai... Uma coisa, entretanto, não tenho ouvido falar nestes dias: famílias sustentáveis.

Como pastor, tenho aconselhado em média 15 pessoas por semana. É uma rotina difícil e desgastante. Diferentemente dos profissionais da saúde, que fazem escuta terapêutica e são treinados para ouvir dramas e não se envolver com eles, pastores sofrem junto com as pessoas, choram com os que choram.

Neste contexto, impressiona-me a quantidade de gente que carrega problemas que foram se complexificando desde a infância. As questões são as mais diversas, porém as mais freqüentes estão relacionadas à auto-imagem, insegurança, baixa auto-estima, auto-sabotagem, além de transtornos ligados à orientação sexual e a afetividade.

Em um “recorte” de recente artigo da revista “Filosofia e Psicanálise” o psicanalista francês Charles Melman afirmou: “pela primeira vez na história, a instituição familiar está desaparecendo, e as conseqüências são imprevisíveis. Impressiona que antropólogos e sociólogos não se interessem por isso”.

Surge, então, a questão: como está a sua família? Você acha que ela é sustentável? Sua casa é um ambiente saudável ou insalubre? Como estão seus filhos? Eles estão crescendo de forma equilibrada: física, emocional e espiritualmente?

Hoje é dia das crianças, mas, sinceramente, muitas delas não têm o que comemorar. Seus pais são personagens ausentes, transeuntes insensíveis e inafetivos que circulam pelos corredores das casas em que elas habitam. Estão sempre sobrecarregados, suas agendas são intermináveis, não dispõem de tempo para amá-las, orientá-las ou brincar com elas. Estes "afazeres" são delegados as babás, a escola, a igreja e, pasmem, aos programas de TV!

Por que você honra seus filhos mais do que a mim...?”. 1 Sm. 2:29.

Esta afirmação contundente foi feita pelo próprio Deus enquanto arrazoava com o sacerdote Eli pelo fato dele negligenciar a educação dos filhos. Apesar de ser um “homem do sagrado”, Eli fez vista grossa para o que acontecia bem debaixo de seus olhos, pois seus dois filhos, Hofni e Finéias, além de se prostituírem a porta da tenda da congregação, ainda profanavam as ofertas e sacrifícios que eram oferecidos ao Senhor tomando parte deles para consumo próprio.
A conseqüência de tamanha licenciosidade foi desastrosa: “E isto te será por sinal, a saber: o que acontecerá a teus dois filhos, a Hofni e a Finéias; ambos morrerão no mesmo dia”.

As Escrituras afirmam que “os filhos são herança do Senhor”. Eles são a melhor coisa que um homem ou uma mulher podem ter sobre a Terra. Podem trazer muita alegria, ou nos fazer amargar de tristeza; tudo depende de como estão sendo criados.

De uma coisa, todavia, estou convencido: “nossos” filhos não são nossos, são do Senhor! Ele nos delegou a responsabilidade de cuidar deles de tal forma a sermos referência em tudo em suas vidas. Se não os educarmos e não lhes transmitirmos os valores do Evangelho, Deus certamente cobrará de nós o destino que eles terão debaixo do sol.

O que aconteceu aos filhos de Eli foi trágico. Desgraça ainda maior sucedeu a sua
descendência: “eis que vêm dias em que cortarei o teu braço e o braço da casa de teu pai, para que não haja mais ancião algum em tua casa. O homem, porém, a quem eu não desarraigar do meu altar será para te consumir os olhos e para te entristecer a alma; e toda a multidão da tua casa morrerá quando chegar à idade varonil”.

O luto de Eli durou pelo resto de sua vida. Ele fracassou na mais importante tarefa que um ser humano pode ter: edificar a sua própria casa. Hoje, dia das crianças, quem brinca são elas, mas nós, adultos, devemos refletir seriamente sobre como as estamos criando, pois chegará o tempo em que a brincadeira se acabará, o que sobrará será apenas a vida real. Por isso, lembre-se do que citou Pitágoras: “corrija as crianças e não será necessário castigar os homens”.

Carlos Moreira

Senso de Sobrevivência Institucional (SSI) X Senso Comum Teórico dos Teólogos (SCTT)

Martorelli Dantas

Eu entrei no Seminário Presbiteriano do Norte bem novinho, tinha 18 anos, mas uma coisa eu já tinha, o tal do senso de sobrevivência institucional (SSI). O que é isso? É a capacidade de saber que há coisas que não devem ser ditas ou feitas, caso você queira sobreviver em uma instituição.

Muito embora o ambiente em que eu estudei, no final dos anos 80, beirasse o fascismo, onde imperava o policiamento intelectual e o denuncismo, eu consegui concluir o curso, em grande parte, pela compreensão e companheirismo de meu Tutor, o Rev. Edijéce Martins Ferreira.
Era claro para mim, que havia alunos que não tinham o mínimo de SSI. Lembro de um colega, que em uma aula de Escatologia, fez a seguinte intervenção, na presença de nosso carinhoso mestre, Rev. Éber Lenz César: “com a licença da palavra... eu acho esse negócio de ser amilenista ou pré-milenista uma merda. Isso não salva a alma de ninguém!" Foi a primeira vez que um “merda” fora dito em uma das sacrossantas salas de aula do SPN e o professor, ruborizado, bradou: Eu não lhe dou licença para usar esta palavra aqui não! Já para fora!!!

Foi este mesmo amigo (querido amigo) que em uma conversa com o, então, diretor do Seminário, respondeu à seguinte pergunta retórica “você sabe quem me colocou no cargo que eu ocupo, meu filho?”, com a assertiva dura e seca: “Sei sim, foi o Diabo!!!”. Eu não preciso lhes dizer que ele não é mais pastor presbiteriano, mas chegou a ser... imaginem vocês...

No final das contas, se você não adulterar, roubar ou matar, acaba sendo aceito como pastor em alguma denominação evangélica. Só não cometa um destes três pecados capitais. Ah... tem mais um, o da heresia. Não pode ser muito herege. Um pouco, quem não é?! Mas tem aquelas doutrinas, sobre as quais não se pode transigir. Não porque sejam pilares da fé, mas porque são as da moda, eleitas pelos “caciques do dia” como as inegociáveis. Nos dez anos em que fui professor de Teologia Sistemática e Hermenêutica do SPN (de 1994 a 2003), eu fiquei assustado com os efeitos que o excesso de SSI pode provocar nos jovens estudantes de Teologia.

Eles aprendem nas suas igrejas locais as respostas certas, elas estão no Catecismo de Westminster, e sabem que aquele é um lugar seguro para se estar e pensar. Nada fora deste estreito enquadramento é chão onde se possa pisar. Em minhas aulas, eu, frequentemente desafiava os alunos a questionarem o fundamento bíblico de suas crenças, verificando se aquilo que confessavam estava na e de acordo com as Escrituras. Mas era, e me parece que continua a ser, um esforço grande demais para a maioria deles, caminhar no espaço de oxigênio rarefeito de uma reflexão pessoal e livre.

Uma brincadeira que eu tinha prazer de fazer, era citar as Institutas da Religião Cristã, de João Calvino e pedir para que eles comentassem. Mas não qualquer citação, as cabeludas, as que não se adéquam com o “senso comum teórico dos teólogos” (SCTT), adaptando um conceito de Luiz Alberto Warat, feito para os juristas. Como pouquíssimos haviam lido Calvino e eram calvinistas de segunda ou terceira mão (explicando... acreditam no calvinismo que ouviram de alguém, que teria lido, que Calvino disse algo mais ou menos assim...), era fácil chocá-los. Como no dia em que mencionei o ensino de Calvino de que Jesus, após a sua morte, foi pessoalmente ao inferno para sofrer, “como que de mãos atadas”, uma vez que a nós estava destinado sofrer, morrer e ir para o inferno, as três coisas fez Jesus por nós.

O que dizer disso?! Era uma confusão só. O SSI não permitia dizer simplesmente que Calvino estava errado, mas o senso comum teórico dos teólogos dizia que a afirmação não fazia sentido (já estou vendo o número de e-mails que eu vou receber de calvinistas me perguntando em que parte das Institutas Calvino diz isso. Vá procurar, vá ler!). O grande problema é que eles não tinham escutado aquilo dos púlpitos de suas igrejas e nem tinham lido nos textos “semi-devocionais” dos calvinistas da moda de agora. E agora? Era justamente isso que eu queria lhes ensinar, que é preciso, nas palavras do Pe. Antonio Vieira, mais do que “pregar sobre os santos, mas pregar como os santos” (Sermão aos Peixes), não apenas pensar sobre o que disseram os nossos mestres e gurus, mas pensar como eles pensaram, criticar as práticas e os dogmas dominantes, como eles fizeram.

Quando deixei a Igreja Presbiteriana do Brasil, no final de 2003, havia recebido a honra de ser o paraninfo das três últimas turmas de bacharéis em teologia do SPN (são turmas anuais e não semestrais), havia sido por duas legislaturas presidente do Sínodo Central de Pernambuco e era Secretário Nacional de Mocidades, mas estava triste. Via crescer e se desenvolver nas mentes de meus jovens amigos o nefasto poder da síndrome do SSI, ela havia formatado e travado de tal modo a mente dos meninos que era notório o clima de medo e insegurança em minhas aulas. Poucos tinham a coragem de me questionar ou debater comigo minhas posições e afirmações, mas não faltavam os que faziam duras críticas ao meu ensino, logo após a minha saída da sala, só pra deixar marcada sua posição ortodoxa e tradicional.

Deixei a IPB de tristeza. Tristeza com a política eclesiástica, sobre o que eu não preciso dizer muito, basta dizer que é só política, nada mais que política. E tristeza pela educação teológica, que já não conseguia formar pensadores ousados e autênticos, mas meros repetidores do que é seguro e lugar comum. A tristeza ainda não passou, mas convive com esperança de que não seja mais assim. Deixei também a IPB, a igreja de meus pais e avós, porque quero continuar pensando, quero me contradizer, ser incoerente, ou seja, quero ser eu, quero ser livre!


Martorelli Dantas é Bacharel e mestre em Teologia e Direito. Doutorando em Filosofia do Direito na Universidade Federal de Pernambuco. É também Mentor da Estação da Zona Sul do Recife do Caminho da Graça

Por quê?


Por que as coisas mais incríveis da vida foram aquelas que passaram diante de nós e a gente quase não se apercebeu delas, foi como brisa de final de tarde num dia ensolarado de verão?

Por que a gente só dá valor a pai e mãe depois que a gente os perde na vida, depois que amargamos experimentar o fato de que os túmulos não falam, nem afagam, apenas calam?

Por que só aprendemos a reconhecer o valor da amizade quando perdemos nossos amigos, sofremos sozinhos, choramos escondidos, disfarçamos na mesa do bar as ausências reveladas pelas cadeiras vazias?

Por que a gente só se sente seguro depois que o corpo não corresponde mais aos nossos anseios, quando braços e pernas teimam em não mais nos obedecer?
Por que a gente só se sente maduro quando não dá mais para fazer coisas que só os garotos fariam, e por que a gente quando é garoto não consegue agir como gente grande?

Por que depois dos 40 a velhice se aproxima tão velozmente: a vista cansa, as costas doem, o sono é conturbado, a paciência diminui, tudo parece apenas mesmice?

Por que o amor com o tempo vai se apagando, como vela em fim de festa, e o seu brilho vai se ofuscando, como o orvalho da manhã que encobre o vidro da janela do quarto?

Por que a vaidade nos deixa a certa idade, os sonhos se esfarelam, os planos se desfazem, as prioridades deixam de existir, tudo, absolutamente tudo, passa a ser algo dramaticamente real?

Por que os filhos crescem tão rápido e nós, pais, sem que façamos absolutamente nada, passamos de mocinhos a bandidos, de heróis a vilões; por que eles deixam de nos beijar, abraçar, de dizer que nos amam e precisam de nós?

Por que a certa altura da vida, o exercício de qualquer que seja a profissão trás consigo um grande enfado, pois quando este tempo chega, até ganhar dinheiro se torna coisa penosa?

Por que antes que venhamos a experimentar todas estas coisas, e os nossos dias tornem-se sem propósitos, não nos rendemos a Deus, que pode ressignificar hoje nossa existência, dar a ela outro destino, colorir o acinzentado que se acumulou em nossos olhos encharcados de tanto asfalto e concreto, por sabor em nossa comida, prazer em nossas relações, sonhos em nossa rotina, música em nossa alma, paz e bem em nossa vida?

Sim, por quê? Por quê? E por que não?

Carlos Moreira

Bob Esponja vai ao Culto


Introdução

Semana passada, quando entrei em casa, vi a Gabi se esbaldando de rir na sala. Curioso, entrei no cômodo e percebi que ela estava assistindo a um desenho do Bob Esponja. Sentei ao seu lado e comecei a assistir também. No episódio, Bob Esponja havia saído do mar para ir a terra seca e, por conta disto, estava desidratado, quase morrendo.

Bob Esponja é uma série televisiva, criada por Stephen Hillenburg, que é veiculada no Brasil pela Rede Globo. Bob é uma esponja do mar quadrada, amarela e que vive no fundo do Oceano Pacífico, numa cidade submarina. Ele é um sujeito bonachão e ingênuo, que mora num abacaxi e trabalha num restaurante.

Nos próximos parágrafos, vou fazer correlações entre esse episódio do Bob Esponja, o “crente de igreja” e a mentalidade consumista dos nossos dias. Agora, para você compreender o porquê de tudo isto, leia o texto até o final...

Decifra-me ou te Devoro

“O fim material de toda atividade humana é o consumo”. William Beveridge. O termo “sociedade de consumo” é muito utilizado por economistas e sociólogos para definir o tipo de civilização que se encontra num avançado nível de desenvolvimento industrial. Lendo um pouco mais sobre o assunto, você poderá facilmente observar que uma das críticas mais comuns sobre a sociedade de consumo diz respeito a sua incapacidade de resistir às pressões do sistema capitalista.

De forma sintética, o objetivo do capitalismo é transformar o desejo do indivíduo, como consumidor, no desejo da massa, multiplicando exponencialmente o potencial de consumo. Para obter esse “milagre”, dentre outras coisas, aplica técnicas de marketing, inovadoras e inteligentes, para produzir nas pessoas a “necessidade” de consumir o que elas precisam e, não raro, o que nem imaginavam ter.

Do meu ponto de vista, a questão já assumiu proporções desastrosas. Estamos sendo movidos pelo que chamo de “concupiscência dos olhos”, ou seja, um desejo desenfreado de possuir coisas, muitas das quais, sequer precisamos. Você entra no shopping para tomar um sorvete e sai com uma calça jeans, um forno microondas e um belíssimo tapete para a sala de jantar. E haja cheque especial para “segurar a onda”!

A impressão que tenho, sem querer ser místico, é que há uma potestade espiritual atuando por trás deste sistema perverso. Existe uma espécie de “overdose de desejos” sendo projetada, ainda que de forma subliminar, na mente das pessoas, nos planos das empresas, nas leis dos governos e nos objetivos das nações.

Olhe para o que está acontecendo no mundo! Do ponto de vista ambiental, por exemplo, temos hoje uma situação insustentável, pois, para podermos saciar o apetite da sociedade de consumo, estamos exaurindo os recursos naturais do planeta, além de despejar indiscriminadamente resíduos tóxicos que ameaçam, seriamente, toda e qualquer possibilidade de regeneração da natureza e dos elementos imprescindíveis à sobrevivência humana. Tal cenário, não é fruto apenas do vazio e egoísmo humano, mas de projeções psíquicas, articuladas por “camadas espirituais”, que visam fomentar desejos incontidos nos indivíduos, não raro, contra si mesmos.

Este capitalismo “selvagem”, que nos empurra na direção de estar sempre adquirindo bens e serviços, impregnou de tal forma a nossa consciência que, como “efeito colateral”, passamos a existir condicionados a essa “espiral de consumo”. Em função disto, todas as interações que fazemos com o meio são baseadas em fluxos de interesses, os quais sempre se movem em nossa direção, como se fôssemos buracos negros, atraindo para nós mesmos tudo o que gravita ao nosso redor. É por isso que achamos tão natural comprarmos coisas indiscriminadamente, usarmos pessoas despudoradamente e explorarmos o planeta até a sua total exaustão!

Cristianismo à La Carte

Buscando correlacionar as implicações dos fenômenos psicossociais de nosso tempo com a vida religiosa, comecei a analisar a relação que existe entre o “crente” e a “igreja”. De antemão, quero lhe afirmar que, em muitos casos, trata-se de uma relação tipicamente patológica, que tem como uma das características principais o “espírito de consumo”, ou seja, esse arquétipo de, em qualquer circunstância, buscar apenas tirar proveito e extrair o máximo possível.

Costumeiramente, a relação desse indivíduo – que passarei a chamar de “Crente Bob Esponja” – com a comunidade, é uma relação baseada no “abuse e use”, na troca desigual, no benefício próprio, no egoísmo, na acomodação, na lei do menor esforço, no “venha a nós e Vosso Reino nada”. Minha conclusão não está baseada apenas em estudos de caso do gabinete pastoral. Pelo contrário, trata-se de uma análise de campo respaldada por anos de observação, por estudos de modelos conceituais, por conversas, discussões, e pela experimentação prática de processos organizacionais, métodos e formas de estruturação eclesiológica.

A conclusão a que cheguei, para minha tristeza, é a de que o “Crente Bob Esponja” é um consumidor voraz! Uma simples análise, por exemplo, sobre como ele escolhe a igreja a qual irá pertencer, já revela clara e objetivamente o problema. Exposto a esse tipo de situação, o “Crente Bob Esponja” levará em consideração apenas aspectos que atendam as suas conveniências e bem-estar. Dessa forma, o local onde irá congregar precisa ter, pelos menos, as seguintes características: bom estacionamento, ótima localidade – prioritariamente perto de casa – segurança, ar-condicionado, boa música, escola dominical para crianças, berçário, excelente pregação – de preferência que não fale em dinheiro nem de aspectos da fé como cruz, renúncia ou sacrifícios – bons programas e movimentos, além de recursos multimídia, é claro!

Na verdade, a relação do “Crente Bob Esponja” com a comunidade é uma relação baseada apenas no receber, e nunca no dar. Ele imagina que a igreja tem como função primordial servi-lo, que os programas foram criados para entretê-lo, que a mensagem foi feita para animá-lo, que os outros membros existem para confortá-lo, e que o pastor presta-se, apenas, a atendê-lo. Tudo gira em torno dele, inclusive Deus, que está ali, de plantão, como se fosse um maître, a sua inteira disposição, para solucionar todos os seus problemas.

Para o “Crente Bob Esponja”, questões como: compromisso, renúncia ao conforto, abrir mão do descanso, sacrificar a agenda, abdicar regalias, empreender recursos financeiros, servir aos necessitados, estão totalmente fora de questão, pois invertem o fluxo “natural” das coisas, não permitindo que ele seja o “centro do universo”. Por isso a grande maioria das igrejas experimenta uma dinâmica funcional (20/80), ou seja, 20% dos membros sobrecarregados, atarefados com uma infinidade de programas institucionais, para manter satisfeitos os 80% restantes, que não se envolvem com absolutamente nada, pois querem apenas “consumir”.

“Arqueologia” do Culto Cristão

Não seria possível, nesta reflexão, analisar os desdobramentos desta questão em todas as instâncias da vida eclesiástica e institucional. Portanto, para poder aprofundar um pouco a discussão, resolvi circunscrever o tema há alguns aspectos da celebração do culto. Para tal, preciso lhe fornecer um brevíssimo resumo sobre a evolução do mesmo.

Quando olhamos para as expressões cúlticas da fé judaico-cristã, partindo do Antigo Testamento, até os nossos dias, percebemos, claramente, um avanço gradativo e conceitual. Antes de mais nada, para alinharmos saberes, quero fornecer-lhe a definição de James Stanley Moore sobre culto. Ele afirma que: “cultuar é vivificar a consciência da santidade de Deus, nutrir a mente com a verdade de Deus, purificar a imaginação pela beleza de Deus, abrir o coração ao amor de Deus, e dedicar à vontade ao propósito de Deus”.

A primeira manifestação de culto nas Escrituras foi individual, através da oferta de sacrifícios em altares, no tempo dos Patriarcas. Na seqüência, surgiu o tabernáculo, que se constituía num “centro de adoração”, meticulosamente construído, com cerimônias simbólicas, sacerdotes paramentados, elementos litúrgicos, rituais de sacrifícios e expiação.

Com a construção do Templo de Jerusalém, iniciou-se uma nova etapa na vida do povo de Israel. As celebrações continuaram com seus aspectos rituais, acrescidas da música como elemento de adoração a Deus. Com a queda de Jerusalém, destruída pelos Assírios, e o consecutivo período do cativeiro babilônico, a alternativa encontrada pelo povo de Israel para a celebração do culto foi à construção de sinagogas, lideradas pelos anciãos, onde funcionavam escolas que ensinavam a guardar os preceitos e rolos das Escrituras, mas ali não se faziam sacrifícios.

No período neo-testamentário, com a irrupção da era apostólica, as reuniões e cultos foram gradativamente passando das sinagogas e do Templo para as casas, sobretudo por causa da perseguição e do martírio dos fiéis. As reuniões eram realizadas aos domingos, em função de ser o dia da ressurreição do Senhor, sem instrumentos musicais, mas com cânticos em uníssono. Nelas havia a oportunidade de se partilhar a fé com outros irmãos e celebrar a Ceia.

Nos séculos que se seguiram, o culto tomou formas mais elaboradas, com leituras, orações e pregações cada vez mais litúrgicas. Iniciou-se a veneração dos mártires, o batismo de crianças, e o estabelecimento dos sacerdotes como intermediários entre Deus e os homens.

Com a “conversão” de Constantino, no século IV, o cristianismo passou a atingir as altas classes da sociedade Romana, o que acelerou seu processo de institucionalização como religião estatal, demandando assim a elaboração de uma liturgia mais esmerada e a realização de cerimônias mais pomposas, com a presença de elementos protocolares, como incenso, vestimentas, gestos e procissões.

Na Idade Média, as igrejas tornaram-se enormes e ricamente ornamentadas, servindo tanto para o culto como para cemitério. As cerimônias eram cada vez mais suntuosas, acompanhadas pelo canto gregoriano, e as formas litúrgicas acabaram substituindo os seus significados. A partir deste momento, o culto passou a perder, de forma acentuada, os elementos mais preciosos que possuía, tornando-se assim uma celebração oca, baseada em ritos tolos, banais, dessignificados, esvaziados de sentidos para Deus e, porque não dizer, até para os homens.

A Reforma Protestante, no século XVI, tentou trazer algumas mudanças na estrutura do Culto, sobretudo em termos da liturgia, que passou a ser mais simples e objetiva. A música voltou a ter um caráter mais significativo, com o retorno do cântico congregacional, e a pregação do Evangelho passou a ser a parte mais importante dos ofícios divinos. De fato, algumas coisas mudaram, mas, em minha opinião, mudou muito pouco, sobretudo, porque não continuou mudando...

Igrejas Cheias de Pessoas Vazias

Nos dias atuais, quando olho para algumas celebrações da igreja, tenho a impressão de que Deus não está nelas! Sendo verdadeiro, se eu pudesse, em muitas ocasiões, também não estaria, ou, dependendo do “andar da carruagem”, tentaria me retirar de maneira incólume. “Culto”, no século XXI, se tornou algo tão despropositado e esvaziado de conteúdos que não é de admirar que a grande maioria das pessoas sinta calafrios só de pensar em ter que ir a um de nossos encontros. Faça o teste! Pergunte aos seus amigos, que não freqüentem igrejas, o que eles acham de um “culto” de igreja?! Você verá que o que eu estou lhe dizendo é a mais pura verdade.

Pensando sobre isso, lembrei do profeta Isaías: “não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação, e também as Festas da Lua Nova, os sábados, e a convocação das congregações; não posso suportar iniqüidade associada ao ajuntamento solene”. Quem está falando, não é o profeta não, mas o Deus do profeta! É a fala angustiada de alguém que está entediado com o culto que Lhe é prestado, pois ele se transformou numa reunião cansada, “mofada”, sem discernimento, entendimento, ou quebrantamento.

Não sei se você sabe, mas, durante 20 anos, servi a igreja como ministro de música. Uma das regras mais básicas para quem executa esta tarefa é estar sempre atento as reações das pessoas, pois o objetivo principal é conduzi-las a um momento de comunhão e adoração a Deus. Na teoria, essa “técnica” é maravilhosa. Na prática, entretanto, se tornou desastrosa...

A questão foi a seguinte: imagina você gastar tempo com Deus em seu quarto, orar, pegar seu instrumento, buscar se aperfeiçoar, ir ao ensaio, elaborar os arranjos, chegar mais cedo no culto, passar o som, motivar a banda e, na hora do “vamos ver”, encontrar uma igreja apática e sonolenta. Eu começava o louvor e 2/3 da congregação se quer havia chegado ao culto e, quando chegava, atrapalhava a mim, que estava dirigindo, e aos que estavam tentando adorar.

Mais trágico ainda é quando você está dando o melhor, e se depara com alguém a sua frente que, irreverentemente, está lendo o boletim, ou conversando com o vizinho, brincando com os filhos, ou, para a desgraça ser total, está dormindo! Por essas e outras, resolvi ministrar louvor de olhos totalmente fechados, pois, assim, nem via a “desgraceira” que estava acontecendo no meio do templo, e o povo ainda me achava super-espiritual!

Ora, tudo que não procede do interior do ser, não tem qualquer significado para Deus. É por isso que o “vinho novo”, ou seja, valores e verdade do Evangelho, não pode ser contido nos “odres velhos” da religião. Mais cedo ou mais tarde, arrebenta! Deus não está buscando freqüentadores de igreja, mas “adoradores que O adorem em espírito e verdade”. Não quer ouvir vãs repetições de credos, ou orações que mais se parecem com ladainhas, não deseja louvores mecânicos, nem ofertas materiais, que saíram do bolso, mas não procederam do coração.

Quebrando Paradigmas

Esses problemas não são novos; sempre existiram. Quando olhamos para algumas epístolas de Paulo, vemos claramente que o culto entre os cristãos primitivos também parecia estar perdendo o seu significado maior. No texto de Coríntios, por exemplo, existe forte ênfase do apóstolo quanto à disciplina necessária para se realizar os encontros. Na sua exortação, aparecem questões ligadas à irreverência, Ceia deturpada, maledicência, abusos, sectarismos, divisões, problemas morais, eclesiásticos e até doutrinários.

Na Idade Média, as questões eram outras, mas giravam em torno do mesmo eixo. O culto sofreu a adição de elementos do paganismo, surgiram doutrinas heréticas, como esmolas garantindo o perdão dos pecados, as ordenanças foram pervertidas, atribuiu-se poderes mágicos ao batismo, além de muitas outras distorções.

O resultado projetado de tudo isto foi o estabelecimento de uma religião adoecida, calcada numa espiritualidade totalmente desprovida de conseqüências para a vida. É por isso que o “Crente Bob Esponja”, herdeiro desta “fé”, acha que já faz muito freqüentando um culto de igreja. Ele entra pela porta, não raro atrasado, senta-se na cadeira, e prepara-se para “consumir” o que vier pela frente.

O “Crente Bob Esponja” não tem qualquer expectativa de participar ativamente de uma celebração. Na verdade, para ele, duas horas de culto são um verdadeiro tormento, por isso consulta tanto o relógio. Às vezes ele fica inquieto, sonolento, e se a pregação tiver mais do que 30 minutos, provavelmente, não voltará mais, pois isto lhe deixa profundamente entediado. Ele participa da Ceia do Senhor, mesmo sem compreender muito bem o que ela significa e, na confissão de pecados, pede displicentemente a Deus que o perdoe. Além disto, no momento do ofertório, que representa uma parte “crítica” da liturgia, sempre sai pela tangente, ou seja, ou vai beber água, ou se dirige ao toalete.

Diante de tudo isso, ainda há algo que possa ser feito? Há. Mas tem que se ter coragem. O ponto de partida, no meu entendimento, está associado à necessidade de quebrarmos um perigoso e antigo paradigma: que culto é um momento feito apenas para se receber, e não, prioritariamente, para oferecer!

No meu entendimento, esta inversão de valores talvez esteja associada à impregnação de nossa consciência pela “bendita” mentalidade consumista. Acredito também que, para nos libertarmos do problema, precisamos passar por uma espécie de “quimioterapia doutrinária”, ou seja, uma overdose de verdades das Escrituras sendo inoculadas em nossa mente e coração para quebrar os conceitos e valores equivocados nos quais acreditamos.

Vejamos, então, o que diz as Escrituras: “Que fazer, pois, irmãos? Quando vos reunis, um tem salmo, outro, doutrina, este traz revelação, aquele, outra língua, e ainda outro, interpretação. Seja tudo feito para edificação”. 1ª Co. 14:26.

Paulo está falando sobre a celebração do culto. Não me parece ser um encontro onde tudo já está pronto, e os ouvintes vão para lá apenas para ser “atores” coadjuvantes, espectadores imparciais ou “consumidores” passivos. Não! Ele nos aconselha a fazer a celebração de forma participativa, para que cada membro do Corpo possa contribuir com aquilo que o Senhor tem lhe dado, na intimidade da oração, nos momentos devocionais, nas experiências de livramento, no aconchego frente à dor da perda, na gratidão pelo perdão imerecido, na alegria decorrente da certeza da vitória, na paz que conforta o coração quebrantado. Creio ser esta a dinâmica que Deus deseja se, de fato, pretendemos cultuá-lo!

Ora, isso é possível? É! Mesmo que sua igreja seja litúrgica, como a minha, isto pode ser feito! Sim, o culto não precisa ser realizado apenas pelos sacerdotes! O culto é o somatório da oferta de dons e talentos de todo o povo de Deus! E mais, o melhor momento do culto, é o culto, ou seja, cada parte é singular naquilo a que se propõe. Creio firmemente que é possível desenvolver uma liturgia livre, não obstante ordenada, espontânea, não obstante organizada, de tal forma a conceder ao Espírito de Deus a liberdade que Ele deseja para agir poderosamente em nosso meio.

Portanto, quebre os paradigmas! Vá ao culto querendo contribuir com algo! Peça para dar um testemunho, ou para fazer a leitura de um texto. Ore por quem está ao seu lado, bata palmas no louvor, ajude a receber os que estão chegando, ou, quem sabe, a arrumar o templo, operar o datashow, contribuir com a montagem do som, distribuir o boletim, etc. Há tanta coisa que você pode fazer! Então, por que não faz? Quer começar com algo importante? Que tal chegar na hora?

A Conversão do “Crente Bob Esponja”

Chegou à hora de voltar ao Bob Esponja! No episódio que estava vendo com a Gabi, o pobre coitado se encontrava à beira da morte, pois estava na terra e precisava, desesperadamente, voltar para o oceano. A questão é que a superfície epitelial esponjosa do Bob é capaz de captar toda a água que ele necessita para estar bem e confortável. Na terra seca, entretanto, isso não é possível. Assim, por conta do calor do sol, ele começou a ficar fraco, dispnéico, quase perdendo os sentidos. Não tivesse voltado para o mar, certamente teria morrido.

Quando o episódio acabou, em meio às gargalhadas da Gabi, saí pensando sobre a semelhança que há entre o Bob Esponja e o “crente de igreja”. É que ambos são bonachões, ingênuos, e precisam de sua “zona de conforto” para sobreviver. Se você tentar tirar o “crente de igreja” de seu habitat natural, que é o banco da igreja, ele começará a passar mal e ficará sem fôlego. Sua “rotina eclesiástica” já está definida e, por isso, você não deve dar-lhe qualquer atribuição ou desafio, pois isso pode, simplesmente, “matá-lo”!

Não pense que será possível, a não ser que o “Crente Bob Esponja” se converta, tirá-lo do seu “oceano” de confortos e regalias, para botar a “mão na massa”. É que, via de regra, é mais fácil ele morrer totalmente desidratado, ou seja, esvaziado de significados para viver a existência, sobretudo pela aridez de sua relação com Deus, que foi apenas capaz de produzir uma religiosidade esturricada, do que se lançar em fé e amor numa comunhão íntima e prazerosa com o Pai, fruto de uma disciplina constante baseada em oração e adoração, que é o “culto racional”.

Creio que se isso não acontecer, ou seja, uma transformação de dentro para fora, o “Crente Bob Esponja” continuará a viver nesse grande “abacaxi” que se tornou a sua vida, assim como o personagem do desenho também vive num. A conseqüência disto é que ele será eternamente criança, ingênuo, praticando uma fé desprovida de propósitos, uma espiritualidade esvaziada de sentidos, um cristianismo apenas de retórica. Poderá ir aos cultos, ou até freqüentar outras reuniões de igreja, porém, quanto mais fizer isso, mas “seco” se tornará!

Não se esqueça, todavia, que Deus é poderoso e pode, num momento de crise, quando o “Crente Bob Esponja” estiver “agonizando” em “terra seca”, se usufruir da situação para levá-lo a ter um encontro que mude, de forma definitiva, toda a sua vida, ressignificando assim os seus dias. Por isso, nunca desista dos “Bob Esponjas” de sua comunidade, pois amanhã, quem sabe, um deles poderá se tornar até o pastor da igreja! Comigo foi justamente assim...

Conclusão

Certa vez, conversando com um pastor amigo, alguém já calejado no ministério, ouvi o seguinte: “rapaz, às vezes eu me sinto como se fosse um animador de auditório, ou um palhaço de circo, tentando motivar as pessoas para que elas prestem um culto com o mínimo de significados para Deus. Me esforço, faço “malabarismos”, “pirotecnias” e tudo o mais, contudo, confesso: é difícil...”. Achei a afirmação curiosa, sobretudo, porque essa é a impressão que tenho, por vezes, quando estou celebrando cultos. Sinto-me como se estivesse com uma enorme mangueira, jogando água sobre uma multidão de “Bob Esponjas”. Dá para entender?!

Sonho em ver uma igreja transformada pelo Espírito Santo, com pessoas que entenderam o significa que há em oferecer um culto a Deus. Sonho com homens e mulheres que desejem ir além do banal, do corriqueiro, que professem uma fé que não seja apenas verborragia, que pertençam a uma comunidade que não seja uma sacola de membros esquartejados, que possuam uma consciência apaziguada em fé, sem julgamentos, presunções ou disfarces. Sim, como Martin Luther King, eu também tenho um sonho...

Contudo, sei que para chegar até este ponto, muita “borracha” ainda tem que ser queimada. Digo isso porque creio que o concerto na Casa de Deus começa pelos pastores e líderes, por aqueles que influenciam pessoas, tomam decisões, exercem autoridade e ensinam a Palavra. Chegou à hora de chamarmos para nós mesmos a responsabilidade de produzir, nesta geração, arrependimento e quebrantamento, enquanto ainda há tempo. Façamos como fez o profeta Amós, quando afirmou: “prepara-te ó Israel para te encontrares com o teu Deus”!

Quanto a mim, a impressão que tenho é que quanto mais rezo, mas assombração me aparece! Por isso, não ficarei assustado se, qualquer dia desses, quando estiver entrando na igreja para celebrar o culto, encontrar entre os presentes o Mickey Mouse, o Pato Donald, o Zé Colméia e o Pernalonga. É que eu já vi tanta esquisitice em igreja que, uma a mais, uma a menos, não vai fazer qualquer diferença...

Agora, medo mesmo vou ter se alguém da comunidade, querendo ser hospitaleiro e cordial com essa turma, se arriscar a perguntar a um deles o que estão fazendo ali. Sim, é que eu tenho a nítida impressão que a resposta será algo do tipo: “viemos hoje aqui porque nos disseram que o “Pateta” iria pregar!”. É, amigo, não se iluda não, por vezes, pastor parece mesmo é com pateta! Durma com um barulho desses...

Sola Gratia !

Carlos Moreira