Postado por Carlos Moreira em
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
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Desde pequeno sempre gostei de fotografia, de álbuns de retrato. Lembro que ganhei minha primeira máquina quando viajei de férias para o Rio de Janeiro, em 1981. Era uma Kodak, pequena, e tinha muito menos recursos do que a que tenho agora no meu iPhone.
Hoje, com os avanços da tecnologia, o hábito de confeccionar álbuns de retratos vem diminuindo sucessivamente. As pessoas mantém suas fotos no celular, no iPad, no computador, e até em porta-retratos eletrônicos que passam as imagens digitais como um letreiro em miniatura.
Pois bem, recentemente estive olhando alguns álbuns de retratos antigos dos meus pais. Impressionante como eles têm o poder de eternizar momentos, cristalizar emoções e sentimentos que se projetam para muito além do papel, acabam se fixando como tatuagens na alma. Meus olhos se encheram de lágrimas e meu coração de saudades...
Não sei se você já se deu conta, mas, em todo álbum de fotografias, só existem fotos que revelam alegria, felicidade, momentos bons, tenros, mágicos! Nenhum álbum registra as dores da vida, as perdas, os fracassos, os momentos de solidão, de desespero, de agonia e de dor. Álbuns parecem ter sido feitos para guardar apenas coisas boas, jamais as ruins.
Enquanto fitava as fotos dos meus pais, em vários momentos de suas vidas, fui lembrando de suas lutas, dificuldades, dos momentos difíceis, dos desafios... Quem olhar para aquele álbum sem conhecer a história, terá a impressão de que tudo na vida deles foi maravilhoso. Mas eu sei que não foi bem assim...
Na verdade, a “mágica” que há por trás de todo álbum de retratos é que, apesar de nele só estarem contidas as cenas mais belas de nossas vidas, entre uma foto e outra, entre um momento e outro, há muita dor e sofrimento contido, ainda que não esteja ali revelado. Sim, entre duas poses, dois sorrisos, dois beijos, dois olhares, existe muita tristeza, perdas, dramas, solidão, matizes dos quais a vida é feita, e são estes momentos que acabam por criar a “ponte” que permite que uma foto se una a outra.
Na vida cristã também é assim... Todas as semanas, muitas pessoas me procuram para dizer que viver o Evangelho, na perspectiva do que Jesus propõe, é algo extremamente difícil. Elas normalmente vêm de uma experiência de conversão daquelas que prometeu o céu na terra, “compraram” ilusões, foram enganadas por falsas promessas de prosperidade, saúde e bem estar. Elas queriam um Deus para servi-las, não um Deus para amá-las.
Se eu fosse publicar, com “todas as cores”, o meu álbum de retratos como discípulo de Jesus, certamente apareceriam mais perdas do que ganhos, mais dores do que alegrias, mais lágrimas do que risos. É que sem sofrimento eu e você jamais nos tornaremos singulares, pois, “quanto mais um homem se aproxima de suas metas, tanto mais crescem as dificuldades”. Goethe.
O escritor do livro de Eclesiastes, no capítulo 3, nos trás uma afirmação difícil de interpretar: “tempo de atirar pedras e tempo de ajuntá-las.”. Eu creio que isto tem a ver com o caminho que trilhamos em nossas vidas. Há um tempo, na juventude, onde nós “espalhamos pedras”, agimos no impulso, na emoção, sem grandes responsabilidades, sem medirmos as conseqüências de nossos atos.
Mas, quando chega à vida adulta, quando já estamos talhados pelas lutas da vida, muitas daquelas “pedras” espalhadas precisam ser novamente recolhidas, uma a uma, pacientemente. Eu já estou vivendo este tempo, pois, durante muitos anos, espalhei pedras pelas estradas que trilhei...
Hoje, todavia, entendo que estas pedras que diante de mim estão não são meros obstáculos, mas sim grandes oportunidades, ou, como diz Fernando Pessoa: “pedras no caminho? Guardo-as todas; um dia vou construir com elas um castelo...”. Ah, e quando fizer isto, certamente não esquecerei de bater umas fotos para colocar no meu álbum de retratos da vida!
Carlos Moreira
Carlos Moreira
*Na foto acima, Augusto Moreira, Eunice Moreira e Carlos Moreira em 1980
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